GASTRÔ

Tradição para atrair sorte Ingredientes associados a superstições de fim de ano compõem receitas sem abrir mão do sabor

MATHEUS RANGEL
matheus.rangel@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 30/12/2017 03:00

A fé que move o desejo por um ano melhor se materializa em diferentes formas e aspectos na noite de réveillon, quando é atribuído um sentido a cada pequeno detalhe, que, acredita-se, pode acarretar em consequências reais no novo ciclo. Se usar roupas brancas ou pular sete ondas são atos considerados importantes, é natural imaginar que alimentos guardem igual significância.

A cultura popular brasileira deposita nos grãos, especialmente na lentilha, o poder de “atrair” dinheiro. Costuma-se dizer que este precisa ser o primeiro alimento a ser consumido no novo ano para proporcionar bonança. Rica em proteínas e vitaminas do complexo B, pode ser incorporada à ceia do réveillon de diferentes maneiras, sobretudo agregada a outros ingredientes para destacar o sabor.

A chef Jaqueline Dantas, do restaurante Varanda, na ilha de Fernando de Noronha, sugere uma farofa com cebolas caramelizadas, cenoura em cubos pequenos, bacon crocante, amêndoas laminadas e molho de limão e azeite - que pode levar também mel, para amenizar a acidez. Ela também cita a sopa de lentilha com folhas de louro - outro elemento associado à sorte, ao sucesso e dinheiro. O chef Abdo Vila Nova, dos restaurantes Castelus e Dom Black, indica um arroz de lentilhas com cebola queimada, para conferir um toque especial ao sabor. O prato costuma ser servido com kibe, mas também acompanha bem filé ou carne de sol. A dica do chef para a ceia é arroz com lentilhas e carré de cordeiro com molho de hortelã.

Relacionada ao conceito de abundância, a romã é menos comum nas mesas nordestinas, mas há quem defenda inserir sementes da fruta na carteira para garantir a prosperidade financeira e fertilidade. A fruta pode ser utilizada em sobremesas, pratos principais e acompanhamentos. Uma opção é a salada, que pode levar pães, tomate, pepino, cebola, hortelã e ser temperada com azeite de oliva e pimenta. O sabor pode ser harmonizado com preparos doces, como mousse com calda de romã, pavê de chocolate ou até cheesecakes. Também é possível incluir no ceviche ou outros pratos, para decoração.

Mesma função podem ter as uvas, detentoras de lugar cativo no imaginário de superstições. A tradição preceitua a ingestão de 12 uvas na virada do ano, simbolizando a quantidade de badalas de um relógio e os meses . A uva costuma ser integrada às receitas sobretudo de maneira decorativa, uma vez que o modo mais comum de consumi-la é de forma direta. Nesses casos, uma dica é inserir pedaços na gelatina logo antes de levar ao congelador. O resultado proporciona um efeito de profundidade interessante na sobremesa, enriquecendo tanto o visual quanto a textura e o sabor.

Originária da região do Mediterrâneo, na Turquia, a figueira está atrelada ao desejo por paz, harmonia e saúde. Há várias referências ao figo na Bíblia. Pela versatilidade, pode ser inserido tanto em preparos doces quanto salgados. Para quem deseja explorar mais o sabor do que a sorte, pode ser preparado, por exemplo, com batatas-doces assadas, em saladas ou até formato de chips. Como sobremesa, pode ser transformado em pudim ou, se fresco, misturado com leite condensado e água, formando um creme.

Outra tradição afirma que o consumo de aves na ceia de ano novo pode atrapalhar a concretização de planos, já que os pássaros costumam ciscar para trás. Carne suína ou peixe representam enorme variedade. Marinar costelas de porco na mostarda e mel ao fazer o preparo da carne com vinho branco pode ser opção interessante, por ter uma boa apresentação, sabor marcante e sofisticado. Quanto ao peixe, vale apostar tanto nos grelhados - com toques diferentes, como legumes tostados ou algum molho especial - quanto em preparos mais elaborados, como à escabeche (marinados em preparos cítricos).