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Profissão como ofício Algumas mulheres dirigem para além do emprego. O transporte escolar pode ser mais do que um simples ato de trazer e levar crianças

Thainá Nogueira
thaina.nogueira@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 14/05/2018 09:00

Ligia Falcão tem 53 anos e dois filhos. Mas há cerca de 16 anos já sentiu o amor de mãe com outras crianças, pelo menos com algumas dezenas. Todos os dias ela acorda cedo para trabalhar e o seu emprego é transportar os filhos de outras mães para as escolas. Ligia não se vê, há muito, em outra profissão. “Não é só dirigir para eles. É uma questão de afeto mesmo”, afirma a motorista.

O dia a dia de Ligia se cruza com o de Ana Paula Moraes, que há seis anos tem a mesma profissão de transporte escolar. “Comecei com uma brincadeira de uma mãe que pediu para eu levar o filho dela para a escola quando eu levava a minha filha. Outras mães começaram a pedir a mesma coisa. No início eram duas crianças, no mesmo semestre o número foi para 10”, lembra.

Com a profissão de motoristas para os pequenos, as duas afirmam que o perfil de mães na hora do trabalho se confunde com o de mãe dentro de casa. “Aconselho, dou bronca, me apego e me responsabilizo por eles”, comenta Paula, Ligia assina embaixo e ainda lembra que até presente para namoradinhos da escola consegue ofertar para as suas passageiras mais românticas.

As histórias com as crianças e o papel de mãe dentro e fora do trabalho se entrelaçam na trajetória das duas. Paula se orgulha ao lembrar que em algumas famílias, nenhuma outra pessoa, no período de seis anos que ela está no ramo, transportou as crianças. “Tem algumas mães que confiam em mim de outros carnavais. Os filhos delas só se locomovem comigo para o trabalho e eu me orgulho disso”, completa.

A bordo de uma Kombi que comprou há alguns anos, Ligia faz o transporte de 20 crianças em 2018. O número é otimista para a motorista, que visa segurança e tranquilidade para as crianças. “Todos os dias às 6h30 começo a trabalhar, sempre foi assim. Dentro da Kombi, faço tudo para a descontração acontecer. Logo de manhãzinha a gente faz brincadeiras, troca piadas, brinca de adivinhar as coisas. Já tenho passageiro que este ano faz 26, 27 anos e continua em contato comigo. Recebi uma mensagem de um passageiro que já saiu há três anos da condução. Me emociono. E, claro, como toda boa mãe, esqueço o nome de muitos”, lembra contente.

Já Paula, que antes tinha uma Doblô, hoje em dia trabalha com uma Ducati e transporta 60 crianças. Acorda todos os dias às 4h. “Além de motorista, somos psicólogas, conversamos, percebemos o jeito deles. Quando estão tristes, cabisbaixos, eufóricos e entusiasmados, identificamos de longe. E eles desabafam. O mais interessante é que, além de ter o cuidado com esses filhos, as mães oficiais deles também têm relações com a gente. Elas ligam e conversamos muito. É uma grande maternidade”, conclui.