Pernambuco e o Japo: Joaquim Cardozo e o teatro n

Rafael Cavalcanti Lemos
Juiz de direito do Tribunal de Justia de Pernambuco. Pesquisador associado Curadoria de Assuntos do Japo da Coordenadoria de Estudos da sia do Centro de Estudos Avanados da Universidade Federal de Pernambuco

Publicao: 18/05/2022 03:00

No Japão, diz-se nô o teatro de máscaras trágico surgido no século 14, em cujos intervalos, para quebra da tristeza, representam-se comédias. Também é conhecido por “teatro das essências”: com um mínimo de movimentos busca o nô à máxima expressão. Em 2011, estendendo em um ano as comemorações do sesquicentenário do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre o Japão e Portugal, o Teatro Nacional D. Maria II exibiu mesmo um Auto da Barca de Viagem (interpretado no ano anterior em Tóquio), versão nô do vicentino Auto da Barca do Inferno. Como o bumba meu boi, mesclam os teatros nô e de Gil Vicente poesia, música e dança.

Nasceu no Recife em 1897 o poeta, dramaturgo e engenheiro calculista Joaquim Cardozo. Parceiro modernista de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, seus desconhecidos (por ausência de arquivos) e surpreendentes (pelos resultados) cálculos tornaram possível a arquitetura de Brasília. Havendo tomado conhecimento, por uma publicação alemã, das peças nô modernas de Yukio Mishima (pseudônimo de Kimitake Hiraoka), discorreu o pernambucano: “Trabalho, até certo ponto, semelhante ao que acabo de fazer, uma vez que o nô é teatro de tradição popular para o Japão, como o boi o é para o teatro brasileiro; como o nô, que na opinião de Yeats é ‘forma dramática distinta, indireta e simbólica’, como nô, que é texto, dança e canto, o boi merece, a meu ver, ser revitalizado, reanimado, como diversão e forma literária.” (CARDOZO, 2017, p. 130). Lê-se em Lima (2017, p. 49): “Mishima defende que […] só na arte seria possível uma união incessante entre amor e alguma lucidez. […] [N]ão é difícil projetar o conjunto desses bumbas de Joaquim Cardozo […] como um suplemento severo de todo seu pensamento que advém desde a linha do cálculo, como técnica, até a linha contingente da arte, que ele delibera como o lugar inespecífico do assombro.”.

Escolheu Joaquim Cardozo ao bumba para três de seus escritos: O coronel de Macambira, De uma noite de festa e Marechal, boi de carro.

Referências:

CARDOZO, Joaquim. Posfácio. In: CARDOZO, Joaquim. Teatro de Joaquim Cardozo: obra completa. Recife: Cepe, 2017, p. 129-131.
LIMA, Manoel Ricardo de. Cenas para um teatro. In: CARDOZO, Joaquim. Teatro de Joaquim Cardozo: obra completa. Recife: Cepe, 2017, p. 41-52.