OPINIÃO

EDITORIAL » Quando o eleitor se sente traído

Publicação: 24/10/2017 03:00

Dizem que o eleitor brasileiro tem memória curta, mas quem acompanha a política sabe que não há nada pior para um político do que prometer uma coisa na campanha e entregar outra. Ontem, em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tocou nesse ponto ao falar sobre o governo de sua colega de partido Dilma Rousseff. “As pessoas se sentiram traídas, porque não era aquilo que a gente tinha prometido durante a campanha”, disse Lula, referindo-se ao ajuste fiscal que ela promoveu no início do seu segundo mandato, pouco depois de reeleger-se na disputa de 2º turno, em outubro de 2014. Ele já havia dito a mesma coisa, em outubro de 2015, quando Dilma ainda estava no poder: “Nós ganhamos as eleições com um discurso e, depois das eleições, nós tivemos que mudar o nosso dis curso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer”.
Não se trata de algo novo na política brasileira — nem o fato de prometer uma coisa e fazer outra, nem o das consequências negativas que recaem sobre quem age assim. Na tensão da campanha, quando todos só pensam em conquistar a vitória (às vezes, a qualquer custo), ninguém presta muita atenção quando se ultrapassa o limite do tolerável.
Vejamos um pouco da história recente. Em 28 de fevereiro de 1986 o governo de José Sarney lançou o Plano Cruzado e logo viu sua popularidade bater nas nuvens. A base governista reunia praticamente todos os grandes partidos (era chamada de Aliança Democrática), e era comandada por PMDB e PFL.  O plano congelou preços e salários durante um ano, estancando a inflação e aumentando o poder aquisitivo da população. Aí vieram as eleições de novembro daquele ano e para a Aliança Democrática foi um passeio — elegeu 77% do Congresso e fez 20 governadores.
Acontece que, uma semana depois de proclamado o resultado, o governo anunciou o Plano Cruzado II, que aumentava em 60% o preço dos combustíveis e não pôde mais segurar os preços. A inflação iniciou o seu retorno. As medidas eram necessárias, segundo avaliação de economistas de diversas tendências, mas deveriam ter sido efetuadas antes das eleições. Se o fizesse, porém, o governo não teria obtido a vitória que obteve.
Veio depois, em 1989, a primeira eleição para presidente pós-golpe de 1964, e a pujança eleitoral dos partidos que haviam formado a Aliança Democrática não passava de um retrato na parede.  Os candidatos mais fortes eram  outsiders: Leonel Brizola, pelo PDT; Lula, pelo PT, e Fernando Collor, pelo recém-criado PRN. O fim dessa história todos nós já conhecemos.
Há um preço a pagar por não se cumprir o prometido em palanque. O candidato pode dizer que a realidade é que mudou após a eleição, e não ele (Dilma disse isso, aliás). Mas o fato é que o eleitor jamais acreditará nessa versão. Como bem disse ontem o Lula, o eleitor nessa situação vai sentir-se é traído.  Regra geral, o final desse processo não costuma ser favorável para aqueles que prometem uma coisa e entregam outra.