Além da propaganda: o que o Ideb realmente mostrou

Alexandre Rands Barros
Economista

Publicação: 19/09/2020 03:00

Nesta semana saíram os resultados do Ideb para 2019. Por ter sido um dos poucos estados que cumpriram a meta estabelecida e a pontuação do Ideb ter sido boa em relação aos demais no país, houve muita comemoração em Pernambuco, principalmente pelo governo do estado. Mas se analisarmos os números além da propaganda, a situação revelada é bem diferente e na realidade até mesmo deprimente para nosso estado. Vale salientar que o Ideb é obtido através de uma multiplicação da nota de desempenho nos exames do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) e a taxa de aprovação dos estudantes na série devida. Como a Secretaria da Educação não consegue melhorar a qualidade do ensino para um padrão minimamente razoável, resolveu adotar a estratégia de forçar a aprovação dos alunos, inclusive constrangendo professores da rede pública. Mas o aprendizado real dos estudantes, medido pelo resultado das provas de português e matemática, mostra realidade bem diferente daquela que é “maquiada” pela facilidade de aprovação dos alunos.

A rede estadual de Pernambuco ficou com a 11ª maior nota média do Saeb em matemática, entre os estados, para o 3º ano do ensino médio. Em português, ficou com a 10ª maior nota. Em ambos os casos, o único estado que não seria esperado estar pior do que Pernambuco nesse comparativo foi o Rio de Janeiro. Não há nada a comemorar como resultado, pois ficaram abaixo de nós apenas estados pobres do Nordeste, do Norte e o Mato Grosso. Quando se vai para o 9º ano, ensino fundamental, a rede estadual de Pernambuco ficou com a 13ª melhor média, tanto em português como em matemática. Novamente, o único estado que não seria esperado estar pior do que Pernambuco foi o Rio de Janeiro. Ou seja, novamente não há nada a se comemorar com esse desempenho, pois pior do que Pernambuco novamente apenas estados pobres do Nordeste e do Norte, além do Mato Grosso. Quando se foca no 5º ano do ensino fundamental, as escolas estaduais ficaram com a 17ª melhor média, tanto em matemática quanto em português. Novamente, pior do que Pernambuco, só tranqueira. Nem o Rio de Janeiro nesse caso.

O que salva o desempenho global de Pernambuco no ensino público de segundo grau (Saeb 3ª  série) é o desempenho do ensino em escolas federais. Nesse caso, as nossas colocações nas médias ficam em 2º e 3º lugares em matemática e português, respectivamente. As escolas municipais têm desempenho relativo melhor do que as estaduais (7ª e 9ª colocações em matemática e português, respectivamente). As nossas escolas privadas também apresentaram desempenho fraco. Suas médias atingiram a 16ª e a 14ª colocações no ensino médio (3ª série) entre as unidades da federação, em matemática e português, respectivamente. Vale salientar, contudo, que as escolas privadas atingiram melhores médias absolutas do que as redes estaduais e municipais em todos os níveis escolares. No entanto, tiveram pior desempenho do que as da rede federal em todos os níveis em que esta também atua (de nono ano em diante). As escolas estaduais, por sua vez, só tiveram pior desempenho do que as municipais em matemática no 3º ano do ensino médio. Isso explica-se pela proporção elevada das escolas de ensino integral nessa última rede. Todos esses números indicam que temos muito que melhorar e que os nossos resultados, na verdade, foram uma vergonha.