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Efeito colateral Escândalos sexuais envolvendo figurões de Hollywood afetam não somente a reputação dos acusados, como também colocam em xeque a viabilidade de projetos milionários da indústria cinematográfica e televisiva

Publicação: 11/11/2017 03:00

Veronique Dupont // AFP
edviver@diariodepernambuco.com.br

Projetos que terminam na gaveta, estreias de filmes suspensas, estúdios ameaçados e a campanha para o Oscar sob incerteza: os casos de abuso sexual envolvendo Harvey Weinstein, Kevin Spacey, Brett Ratner e outros provocaram um grande caos em Hollywood.
Um mês depois do início do escândalo, revelado pelo jornal The New York Times e pela revista The New Yorker, a respeito do produtor Harvey Weinstein, acusado por mais de 100 atrizes e ex-funcionárias de assédio, agressão sexual e até estupro, muitas pessoas tomaram coragem para denunciar outros pesos pesados da indústria sobre condutas similares.
Desta maneira aconteceram as denúncias contra Spacey, vencedor de dois Oscar, e o diretor Ratner, entre outros atores, agentes, executivos. São tantas revelações que o jornal Los Angeles Times perguntou em um editorial: “Quem será o próximo?”.
“Espero que todo este caos pavimente um caminho para uma punição na indústria”, afirmou a atriz Jessica Chastain em uma entrevista à agência France Presse. Tim Gray, editor da revista Variety, disse que “há escândalos em Hollywood desde a era do cinema mudo, mas era uma pessoa, um incidente. (...) Estou na Variety há 30 anos e nunca vi algo assim”, afirmou.
Qualquer projeto com a marca de The Weinstein Company, fundada por Harvey Weinstein e seu irmão Bob, se tornou tóxico, mas há apenas alguns meses isto era um sinal de prestígio. O diretor Oliver Stone, que em um primeiro momento defendeu o produtor, decidiu pouco depois retirar do estúdio seu projeto sobre a série Guantánamo.
O filme mais recente do estúdio, Amityville: O despertar, arrecadou apenas US$ 742 em mais de uma semana em cartaz nos Estados Unidos, segundo o site especializado boxofficemojo.com. E a empresa está à beira da falência. Outros estúdios foram abalados por escândalos sexuais, como a gigante da internet Amazon, cujo diretor Roy Price se demitiu após denúncias de assédio contra ele. A crise na Amazon provocou um dano colateral: a aguardada série de televisão do diretor David O. Russell (O lado bom da vida) foi “abatida”, explicou a atriz Julianne Moore.
“Com a derrocada de Weinstein e a questão na Amazon, todo mundo saiu do projeto”, afirmou a atriz vencedora do Oscar, que trabalharia com Robert de Niro na série. Um roteirista que trabalhou por meses em um projeto de série para a Amazon afirmou que agora é incógnita se o projeto será concretizado.
A gigante do streaming Netflix também enfrenta uma crise com as acusações contra Kevin Spacey, protagonista da aclamada série House of cards. A produção da sexta temporada - que seria a última - foi suspensa de modo abrupto e o lançamento do filme Gore (sobre o escritor Gore Vidal), também estrelado por Spacey, foi suspenso. Teve mais: o diretor Ridley Scott decidiu remover Kevin Spacey de Todo o dinheiro do mundo, filme já pronto, e substitui-lo por Christopher Plummer.
A Sony Pictures apostava no filme  como principal trunfo para o Oscar, mas o panorama mudou completamente. E a apenas quatro meses da cerimônia, “quem sabe que histórias vamos descobrir sobre outros na disputa?”, completa Gray.
A Warner Bros rompeu uma parceria de centenas de milhões de dólares com a produtora RatPac de Brett Ratner, que trabalhava em uma adaptação do livro O pintassilgo. “Esta é uma lição para todos em Hollywood”, afirma Gray. “Todo mundo é substituível. Kevin Spacey era a grande estrela de House of cards, que continuará sem ele”.
A Academia expulsou Weinstein no mês passado, mas os outros acusados ainda são membros da organização. Também existe o escândalo nos bastidores: o representante Tyler Grasham foi demitido de uma prestigiosa agência e outro agente, David Guillod, se demitiu, ambos por denúncias de assédio sexual, enquanto o ator Danny Masterson foi acusado de estupros e foi criada uma petição para que a Netflix cancele sua série (The ranch).
Para Gray, é evidente “que existe algo errado com a indústria”, destacando os problemas de diversidade, denúncias de discriminação contra minorias e mulheres e, agora, de abuso sexual. “E, embora Hollywood adore um grande retorno, os casos de Weinstein, Spacey e Ratner não podem ser perdoados”, conclui.