VIVER

Em defesa dos humanos Netflix estreia no clube das produções estreladas por equipes de super-heróis com personagens marcados por dilemas sociais contemporâneos

Fernanda Guerra
fernanda.guerra@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 17/08/2017 03:00

Cidade do México – Desde 2015, a parceria entre a Netflix e a Marvel já atraiu um contingente expressivo de fãs em quatro séries: Jessica Jones, Luke Cage, Demolidor e Punho de Ferro, todas renovadas para as segundas temporadas, com exceção de Demolidor, cujas filmagens da terceira começam em outubro. Rodeada de expectativas, Os Defensores, a quinta série do projeto, estreia amanhã com os quatro super-heróis reunidos e dividindo o protagonismo.

Além de apresentar novas tramas envolvendo os personagens de HQs, a Netflix contribui para aumentar ainda mais a popularidade dos personagens e, quem sabe, fomentar uma renovação do público consumidor de narrativas do gênero. Vale ressaltar que as séries estão disponíveis em 190 países. Por exemplo, o próprio ator Charlie Cox não conhecia o Demolidor antes de ser convidado para incorporar o personagem no serviço de streaming. O inglês, de 34 anos, nunca tinha lido um HQ do super-herói, cuja primeira publicação ocorreu nos anos 1960. Antes de estrelar Punho de Ferro, cuja primeira aparição foi registrada em 1974, Finn leu quadrinhos para identificar o tom utilizado em diferentes obras. O mergulho no universo de superpoderes surtiu efeito positivo.

“Tem sido incrível. Filmar uma série individual, focada num único personagem, pode ser muito cansativo, pesado. É algo muito sério. Um projeto em comum é maravilhoso. Nós temos dias de folga, podemos descansar, deixar a série respirar, os personagens respirarem”, detalhou, em entrevista a jornalistas da América Latina no México. Embora Punho de Ferro tenha recebido críticas negativas, Jones considera que elas foram minoria. Em abril, o ator participou da Comic Con Tour Nordeste, em Pernambuco. “Foi ótimo, uma loucura (risos) As pessoas são muito apaixonadas. Amo isso. Amo ir ao Brasil”, comentou.

Em Os Defensores, os quatro primeiros episódios - são oito, no total - contextualizam os personagens no momento posterior aos seriados individuais. Na medida em que os episódios avançam, os personagens se cruzam. As nuances das cores ajudam a demarcar cada herói, como tons mais sombrios para Matt Murdock (Charlie Cox) e mais suaves para Danny Rand (Finn Jones). Conflitos urbanos e personagens femininas fortes seguem na nova produção. Uma delas é a vilã Alexandra (Sigourney Weaver).”Ela é o ícone americano que menos desaponta você. Ela é tudo o que você espera que ela seja. É muito especial”, ressalta Charlie. Para o elenco da produção, Os Defensores é uma espécie de “celebração dos super-heróis”.

A repórter viajou a convite da Netflix

Entrevista

Charlie Cox e Finn Jones // atores

Vocês notam alguma evolução no aprendizado/amadurecimento de seus personagens em Os Defensores? E o que eles podem ou deveriam aprender um com os outros?
Charlie Cox - Sim, claro. Como é de se esperar em boas séries, os personagens aprendem ao longo da jornada, aprendem a partir dos próprios erros. É algo com que concordamos. Algo interessante é que eles são forçados a trabalhar juntos, como um time. Têm personalidades únicas, mentes únicas e são colocados juntos, precisam aprender a trabalhar em equipe. Falando por Matt, ele precisa aprender a ter maior sensibilidade, algo a que se opunha a princípio, e acreditar que aquelas pessoas têm boas intenções.
Finn Jones - Quanto ao Danny, sinto que progrediu. Uma das grandes questões que tinha, desde o princípio, era o que poderia aprender com os outros três personagens e o que poderia lhes dar. É importante para mim. Danny ter estado em contato com esses personagens o tem mantido mais focado, consciente das responsabilidades. Vê que os outros personagens têm habilidades parecidas com as suas, mas usam habilidades com discernimento, propósito. É a primeira vez que vê isso. Isso o torna mais sensível a essas responsabilidades. Ele vê que não está sozinho.

Como as séries da Netflix com a Marvel ajudam a renovar o público das HQs?
Finn Jones - Acho que a Netflix tem mantido os quadrinhos vivos. Você tem as séries dedicadas a um único personagem, depois aquela série pode se cruzar com outra, os personagens se misturam, surgem supergrupos... Como nos quadrinhos. A Netflix tem feito uma boa representação das HQs, uma releitura real do que foi feito no passado.
Charlie Cox - Uma das primeiras coisas que você descobre quando se engaja com os fãs de uma série é que se você cresce amando aqueles personagens, você não deixa de gostar deles quando tem 20, 30, 40 anos. Você os mantém vivos, o que é maravilhoso. Esses personagens têm fãs que os acompanham desde a infância. Quando se faz um filme de super-herói, o objetivo ali é fazer dinheiro, entende? Então algumas coisas são modificadas para agradar o grande público, mais ainda as crianças e jovens, que geram grande bilheteria. Uma coisa excelente que a Netflix tem feito é não produzir nenhuma mentira para tornar as séries mais populares. No cinema, alguns personagens têm sido infantilizados. Outros, ganhado contornos muito sombrios. Os fãs de 20, 30, 40 anos têm sido contemplados.

Como tem sido lidar com a questão da espiritualidade e da fé na série?
Finn Jones: Isso pode exigir um profundo entendimento de por que eles tiveram que trabalhar juntos, o que podem fazer. Ele (Punho de Ferro) foi um dos primeiros personagens a aceitar essas questões. Aceitou melhor que os outros personagens.
Charlie Cox: A fé tem sido um aspecto interessante na série. Isso representa uma oposição ao que ele fazia. Ele realmente precisa entender como as coisas acontecem. Sou católico e me identifico com essa questão da fé, esses dilemas dos personagens.

Por trás dos poderes
Nas cinco séries, a Netflix apresenta heróis mais humanizados em conflitos urbanos, o que ajuda na identificação com o público. Em meio ao universo de superpoderes, empunham bandeiras reais, como empoderamento feminino e o combate ao racismo.

Feminismo
Estrelada por Krysten Ritter, Jessica Jones traz o empoderamento feminino como essência da série. A personagem principal é uma investigadora, cuja habilidade é a força extraordinária adquirida após acidente de carro. Relacionamentos abusivos são o cerne da primeira temporada.

Inclusão
Demolidor foi a primeira série da Netflix com audiodescrição, ou seja, com narração com detalhes da cena para os cegos. O personagem principal é o advogado Matt Murdock, deficiente visual desde a infância. A partir daí, ele adquiriu habilidades especiais.

Questões raciais
O personagem é um dos primeiros super-heróis negros dos quadrinhos. Ele foi preso injustamente e, na cadeia, sofreu maus-tratos e foi submetido a experimentos. Como cobaia de uma delas, tornou-se indestrutível. Boa parte do elenco é negra e a trilha sonora tem músicas de hip hop e soul.


Espiritualidade oriental é a marca do empresário Danny Rand, o Punho de Ferro. Considerado morto, ele foi treinado no universo de artes marciais em uma cidade mística. Na série, que aborda filosofia, ele não usa o uniforme do super-herói nos quadrinhos.