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Fase de mutação Mais antigo festival de cinema do estado em atividade, o Cine PE contorna queda de patrocínios, boicote e adiamentos sucessivos para começar nesta terça-feira

texto: Breno Pessoa
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 24/06/2017 03:00

O Cine PE chega à 21ª edição encarando o paradoxo de ser o mesmo festival de sempre, ao mesmo tempo em que não o é. Com programação que vai da terça-feira até 3 de julho, o evento mantém o formato estabelecido das últimas duas décadas, mas em momento adverso, com diminuição do público e redução do orçamento.

“Festival não precisa estar mudando”, acredita a realizadora Sandra Bertini, responsável pelo Cine PE. “O que a gente faz para manter o público e os patrocinadores é sempre procurar oferecer uma programação relevante, ter filmes inéditos”, afirma, destacando que a estrutura atual é a mesma de anos anteriores. “É muito difícil inovar”, analisa, acrescentando que os verdadeiros responsáveis por trazer frescor ao evento são as produções audiovisuais.

Enquanto, aparentemente, os filmes exibidos nos últimos anos não estão garantindo o vigor necessário ao Cine PE, a organização depende de elementos menos subjetivos, como recursos financeiros. “A verba está diminuindo”, afirma Bertini. Ela acrescenta: “A gente não quer culpar só a crise financeira (do Brasil), mas ela atrapalha muito a carreira dos festivais e de outros projetos culturais”. Prevista inicialmente para a primeira semana de maio, a edição 2017 precisou ser adiada para que a organização pudesse viabilizar todos os patrocínios necessários.

A queda no público nas recentes edições levou a organização a, desde 2015, realizar o evento novamente no Cinema São Luiz, casa original do festival. No ápice da popularidade, quando realizado no Centro de Convenções de Pernambuco, as sessões mais concorridas chegavam a lotar os mais de dois mil lugares do Teatro Guararapes. Essa queda na procura, crê Bertini, é resultado das mudanças no cenário audiovisual do estado, hoje menos carente de espaços para projeção de obras que dificilmente entram em exibição no circuito comercial. “Quando começamos (em 1996), éramos soberanos. Éramos os únicos, uma novidade. Só existia a plataforma do Cine PE para mostrar esse filmes. Antes, no Nordeste, só havia o Cine Ceará (criado em 1991)”.

Ela cita o Janela de Cinema, que neste ano chega à décima edição, e outros festivais e mostras, realizadas inclusive fora da Região Metropolitana do Recife, como fatores decisivos para a redução da audiência do Cine PE. “Hoje há uma variedade de projetos com perfis diferentes, que atendem a determinados gostos e afinidades”, destaca, mencionando a crescente facilidade para o consumo de filmes em casa, com a popularização de plataformas de streaming e de TVs por assinatura. “A gente vai ter que pensar festival com essa convergência das mídias”, avalia, sem dar pistas sobre futuro.

Em adição a todos os entraves, um imprevisto trouxe outro percalço, gerando novo adiamento: a retirada de alguns filmes já escalados. Um grupo de cineastas decidiu não exibir suas obras após o anúncio da programação do 21º Cine PE. Em nota, realizadores afirmaram que a seleção “favorece um discurso partidário alinhado à direita”. No centro da polêmica, a presença dos filmes Real: A história por trás do plano (SP), de Rodrigo Bittencourt, e Jardim das aflições (PE), de Josias Teófilo. O primeiro ficcionaliza os bastidores do conjunto de medidas econômicas adotadas na criação da moeda Real, enquanto o segundo é um documentário sobre o jornalista e filósofo conservador Olavo de Carvalho. Sandra Bertini nega a suposta politização na curadoria e afirma que o evento é feito “com vários olhares diferentes”. Ela diz que, se fosse diretora, não tiraria seu filme da grade. “A exibição leva à discussão, entender as questões particulares dos filmes”, ressalta.