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Agora é com você Primeiro longa do cineasta pernambucano Pedro Severien, Todas as cores da noite convoca o espectador a "construir o filme"

BRENO PESSOA
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 23/03/2017 03:00

Corpo que aparece na sala da protagonista após uma festa é o mote da trama, cuja realização durou cinco anos (BETO MARTINS/DIVULGAÇÃO)
Corpo que aparece na sala da protagonista após uma festa é o mote da trama, cuja realização durou cinco anos

Em Todas as cores da noite, primeiro longa-metragem do pernambucano Pedro Severien, as lacunas da narrativa são tão importantes quanto o que é mostrado em tela. “Me interessa muito essa provocação de um cinema que convida o espectador a imaginar, a construir um filme próprio”, diz o cineasta, prestes a desafiar o público com a estreia nacional, amanhã, do novo trabalho em salas de exibição em 11 cidades brasileiras. No Recife, será exibido no Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175, Boa Vista), às 19h30.

Antes da projeção, o elenco fará uma performance intitulada O circuito dos desafetos. Segundo o diretor, é “um aditivo ao filme, como cinema ao vivo, que dialoga também com a linguagem teatral”. Outro aspecto das artes cênicas está no próprio longa, com o uso de monólogos. O realismo fantástico da literatura é mais uma influência presente na trama, idealizada a partir de uma mistura entre real e imaginário, com pinceladas de horror.

O longa tem como fio condutor Iris (Sabrina Greve), que, após noite de festa no apartamento à beira-mar, encontra um corpo na sala. A situação leva a protagonista a relembrar a situação vivida por uma amiga de infância, Tiara (Giovanna Simões), estudante de medicina responsável por acidente de trânsito que acabou em morte. O receio de Iris é sofrer a mesma hostilização enfrentada por Tiara e virar persona non grata na sociedade.

Responsável pelo argumento do filme, Severien afirma que a premissa surgiu de histórias ouvidas na adolescência. “Veio de uma vivência urbana, nesse lugar de uma pessoa de classe média no Recife, na década de 1990. Eu escutava muitas histórias, coisas brutais, que eu não via aparecer nos meios oficiais ou na mídia”, conta. O roteiro é assinado por Luiz Otávio Pereira. Desconfortável e econômico, o filme se destaca por escapar da armadilha de oferecer uma trama excessivamente explicada ou subestimar a inteligência do telespectador.

2 perguntas

Pedro Severien // cineasta

O filme é enxuto, com pouco mais de uma hora. Qual a razão dessa escolha?
Na montagem, trabalhei com uma dimensão lacunar, de narrativa que não é explicativa ou denotativa. Queria deixar lacunas para serem preenchidas pelo público. Óbvio que tinha mais coisa filmada, mais histórias. Mas achava que seria mais convidativo ao chegar a essa duração. Há um exercício imaginativo. Se ficasse longo, poderia ser cansativo. O filme é uma meditação, não um esforço de concentração, mas de se abrir, deixar os pensamentos vagarem pela mente, um desafio de entrega.

Foram cinco anos entre o início da produção e o lançamento. Como foi ficar  tanto tempo envolvido em um projeto?
É um processo de criação que não é totalmente planejado. Me lanço para filmar um tema, sigo a intuição. O tempo dá ao material outra qualidade, como se as imagens fossem oporacionalizadas pelo próprio tempo. O filme foi se construindo nesse jogo. Mas é mais doloroso, imprevisível. Não é algo que quero repetir para todo projeto.