"Principal diferença é de capital humano" Em seu novo livro, economista faz uma análise das desigualdes regionais e procura achar suas raízes

Publicação: 09/11/2019 03:00

A desigualdade social entre o Nordeste e o Sudeste do país é um fenômeno presente há décadas, ou melhor, que pode ter sido impulsionada ainda no século 19, segundo o economista Alexandre Rands Barros. O tema está em seu livro Raízes das desigualdades regionais no Brasil. A publicação será lançada na próxima terça-feira, às 18h30, na Livaria Jaqueira, no Paço Alfândega. “O período em que as disparidades regionais surgiram também foi revisto. Foi identificado que começaram a partir do último quarto do século 19 até os anos 1930”, conta Rands, que chega ao seu terceiro livro tratando do assunto. “Adicionou-se a essa última (publicação) a postura das elites locais em relação às imigrações, dentro da perspectiva de uma sociedade com grande tradição escravocrata”. O economista destacou que, para seu novo lançamento “também se sofisticou tecnicamente algumas das análises, introduzindo mais rigor acadêmico”. Isso ajudou a diagnosticar o que ele aponta como os principais pontos que provocaram essa disparidade. “O nordestino, em média, tem menos anos de estudo e se submete a escolas piores. 100% das desigualdades regionais são explicadas por essas diferenças”, afirma. “Relações sociais e políticas explicam porque aqui se acumulou menos capital humano ao longo da história, sendo essa a causa fundamental”, acrescenta.

Entrevista Alexandre Rands // economista

O que lhe inspirou a pesquisar sobre o tema das desigualdades regionais?
Acredito que a pesquisa científica deve ser dirigida principalmente para a geração de conhecimento que possa melhorar a vida das pessoas. Então, como nordestino e economista, naturalmente dirigi parte de minhas pesquisas acadêmicas para entender as desigualdades regionais. Não precisou de muito estudo para perceber que as políticas regionais não estavam funcionando. Isso significa que elas deveriam estar falhando na interpretação ou na aplicação. Daí surgiu a preocupação em entender exatamente onde elas falhavam.

Quais são as principais causas do subdesenvolvimento nordestino em relação ao Sudeste?
A principal causa imediata é a diferença de capital humano entre as regiões. O nordestino, em média, tem menos anos de estudo e se submete a escolas piores. 100% das desigualdades regionais são explicadas por essas diferenças. Relações sociais e políticas explicam porque aqui se acumulou menos capital humano ao longo da história, sendo essa a causa fundamental.

O que diferencia o livro atual do anterior?
Basicamente, manteve-se a análise anterior no que diz respeito às causas imediatas e fundamentais do atraso relativo, mas adicionou-se a essa última a postura das elites locais em relação às imigrações, dentro da perspectiva de uma sociedade com grande tradição escravocrata. Essa adição decorre do fato de as imigrações terem sido as principais responsáveis pelo surgimento da disparidade em estoque de capital humano entre regiões e mesmo por sua permanência a partir da acumulação interna desse fator de produção. Também se sofisticou tecnicamente algumas das análises, introduzindo mais rigor acadêmico. O período em que as disparidades regionais surgiram também foi revisto. Foi identificado que começaram a partir do último quarto do século 19 até os anos 1930.
 
Que ações práticas os governos deveriam adotar para mudar esse cenário?
Adotar uma política séria de educação na região, não apenas reproduzindo o padrão demandado pelos governos municipais e população local que frequenta escolas públicas. É preciso ser agressivo na qualidade da educação no Nordeste com vistas a compensar as deficiências que as crianças e adolescentes trazem dos convívios domésticos. A Sudene, por exemplo, poderia ser uma instituição de apoio à qualidade da educação. E parar com esse negócio de ficar transferindo dinheiro para empresários ou sustentando funcionário público para não trabalhar.

Se você fosse ranquear os problemas que mais contribuem para a manutenção desse cenário na nossa região, que problemas destacaria?
A baixa disponibilidade e a má qualidade da educação aparecem à frente dos problemas, de forma disparada. Em seguida, vem o excesso de setor público. Muita burocracia. Muita gente empregada para não fazer nada ou apenas conspirar contra os cidadãos. Muito rent seeking (pessoas que vivem em torno do setor público para obter benefícios, seja corrupção propriamente dita, ou ganhos “extra-mercado” para suas atividades empresariais).

Há sempre uma dependência muito grande do Estado quando o assunto é educação. Na sua opinião, de que maneira a iniciativa privada poderia contribuir mais com essa questão?
Ela já faz, que é ofertando escolas melhores e cursos superiores para quem pode pagar, no caso da última ampliando o acesso ao ensino para quem não entra no ensino público. Acredito que ela poderia também ofertar a infraestrutura das escolas, mas para isso os governos teriam que terceirizar esse serviço, pois construir escolas, mantê-las, administrar sua segurança e comprar materiais que elas demandam (papel, etc), não são funções de governos. E quando eles se metem a fazê-lo obviamente desempenham muito mal e introduzem os caminhos para a corrupção.

Qual a mensagem principal que você gostaria de deixar na cabeça de quem ler o seu livro?
Parar com esse negócio de ficar achando que nós nordestinos somos coitadinhos e perceber que nosso atraso é fruto de nossas próprias construções do passado e que somos nós que temos que eliminá-lo a partir de escolhas certas.