"Quem trata das eleições são as forças desarmadas" Em resposta às suspeitas levantadas sem prova por Bolsonaro, presidente do TSE defende sistema eleitoral brasileiro e eleva tensão com chefe do Executivo

Nathália Monte
politica@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 13/05/2022 03:00

A série de trocas de farpas entre as Forças Armadas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ganhou um novo capítulo ontem. Em uma rápida entrevista à imprensa, o ministro Edson Fachin, presidente da Corte, fez um trocadilho com o nome “Forças Armadas” ao afirmar que são as “forças desarmadas” que cuidam das eleições.
 
Apesar de não se dirigir diretamente ao presidente Jair Bolsonaro, a resposta é clara diante do clima de tensão com o chefe do Executivo nacional. “A contribuição que se pode fazer é uma contribuição de acompanhamento do processo eleitoral. Quem trata de eleições são “forças desarmadas” e, portanto, as eleições dizem respeito à população civil que de maneira livre e consciente escolhe seus representantes. Logo, diálogo sim, como eu disse, colaboração sim, como eu disse, mas na Justiça Eleitoral quem dá a palavra final é a Justiça Eleitoral”, enfatizou o ministro.
 
Ao longo de oito meses, o TSE recebeu 88 questionamentos e sugestões das Forças Armadas. A Corte percebeu, no entanto, que esse material reproduzia o discurso do presidente Jair Bolsonaro (PL) ao colocar em dúvida a apuração dos votos e o sistema eletrônico de votação. A constatação foi feita pelo jornal O Estado de São Paulo.

Descentralização
Uma das sugestões dos militares foi que a contagem de votos, hoje centralizada em Brasília, seja realizada também pelos estados, através dos Tribunais Regionais Eleitorais (TERs), como em eleições passadas. Em resposta, o TSE disse que a centralização foi uma recomendação da Política Federal, mas que os TREs e qualquer cidadão podem verificar os boletins de urna pela internet.
 
Caso verificada uma irregularidade na integridade das urnas eletrônicas, sugeriram os militares, o TSE deveria ter um plano melhor para lidar com a situação. Neste caso, a Corte afirmou que já existe um plano de respostas para tal, além da investigação que juízes eleitorais podem fazer sobre casos específicos.
 
DESARMONIA

Foi o próprio TSE que se aproximou das Forças Armadas, em 2021. Quando a Corte criou a Comissão de Transparência das Eleições, formada por representantes de 12 instituições, entre elas a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), abriu também vaga para um representante do governo. A ideia era que os militares confirmassem, de perto, a segurança da votação eletrônica, numa espécie de ‘auxílio’ na contenção de ameaças de golpe do presidente. O problema é que o gesto tem surtido o efeito contrário, já que os representantes de Bolsonaro vêm repetindo suas ideias.
 
Nesse contexto, existe hoje a possibilidade de as Forças Armadas saírem da Comissão criada pelo TSE, e o Exército já enxerga isso como algo positivo. É o que afirma uma reportagem da CNN Brasil, publicada nesta segunda-feira (9), que conversou com fontes militares. Se concretizado, o passo deve ser feito com cautela, já que o ideal é afastar rumores de que as Forças Armadas se tornaram um instrumento do presidente para impulsionar sua reeleição.