RISCO » Lojas abertas em Brasília Teimosa

FILLIPE VILAR
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Publicação: 26/03/2020 03:00

Em Brasília Teimosa, Zona Sul do Recife, o comércio e a população em geral ainda não começaram a seguir as regras de distanciamento em sua totalidade. Ontem à tarde, na Rua Arabaiana, uma das principais do comércio local, muitas lojas abriram, aproveitando o grande fluxo de pessoas nas ruas.

Anderson Moraes, 36 anos, é dono de uma pequena gráfica no local que funciona em um espaço de poucos metros quadrados. Ele diz estar preocupado com o avanço do coronavírus, mas reconhece que os estabelecimentos têm funcionado. “De manhã estão abrindo normal, de tarde tem uma diminuição. À noite estão fechando tudo, não fica ninguém aqui”, relatou.

“Nós temos que proteger nossos pais, avós, mas o jovem, infelizmente, tem que trabalhar”, disse, contrariando recomendação dos especialistas. O relojoeiro Antônio José, 60 anos, trabalha na mesma rua e está na faixa etária de maior perigo da Covid-19, mas sua maior preocupação é com o sustento da família. “Como é que a gente fica em casa? Eu tenho oito filhos, preciso levar comida para a mesa. É muito fácil pedir para não sair, mas a gente vai ter ajuda?”, questionou.  

Durante a reportagem, Antônio Santos, 45 anos, desviava dos muitos pedestres na Rua Arabaiana, pedalando uma bicicleta de som. Ele reproduzia um informe da Prefeitura do Recife pedindo para a população ficar dentro de suas casas. “O pessoal, como você está vendo aí, não quer ajudar”, lamentou.

Antônio, que é dono de uma pequena galeria no fim da mesma rua, também está sofrendo o impacto econômico causado pela quarentena. “Não posso cobrar aluguel nem da loja de moda praia , da loja de sandálias,  da ótica e da peixaria. Só a de açaí tá aberta, fazendo entrega”, relatou Santos.

O pequeno empresário contou que uma moradora da comunidade chegou a ser ameaçada de morte por ter voltado de viagem com sintomas de gripe. “Ela teve que sair daqui porque o povo queria matar. Mas ninguém tem culpa de ficar doente, né?”, disse Antônio Santos. A reportagem tentou contato com a mulher que teria sido ameaçada, mas não obteve resposta. A identidade da moradora, que não foi confirmada como portadora do novo coronavírus, será preservada.

Rosimere Gomes, 35 anos,  é residente da Avenida Brasília Formosa, na beira-mar. Ela passa a tarde ao lado da mãe e irmãos, sentados em cadeiras de plástico na porta de casa. A moradora contou que no dia 21, quando o governo decretou o fechamento, colocou a sua banca na calçada em frente à sua residência, mas a polícia ordenou para que recolhesse o material.

“Os policiais passaram aqui e mandou fechar. Aí não posso trabalhar, estou esperando alguma providência. A gente que vive do comércio fica prejudicado nessa situação”, reclamou. Quanto ao perigo do coronavírus, ela disse que está tomando os cuidados recomendados pelo Ministério da Saúde, como lavar as mãos e evitar aglomerações. “Acho que foi depois do carnaval que isso espalhou, né? Mas se eu ficar doente, não vou me isolar. Me perdoe”, disse.