Paulista em busca de mais isolamento com urgência Problemas como abertura de comércios não essenciais e circulação de pessoas ainda são comuns e cidade clama por lockdown

Publicação: 22/05/2020 03:00

“Sinto que tem mais gente na rua durante o isolamento do que quando podíamos sair. Fico em casa a maior parte do tempo, mas hoje precisei vir ao mercado e encontrei a feira livre cheia. Espero que seja implantado o lockdown para que possamos ficar seguros”, disse o funcionário público José Alves, morador de Paulista. Na última sexta-feira (14), o prefeito do município, Junior Matuto, enviou um ofício ao Palácio do Campo das Princesas, solicitando a inclusão do município no Decreto nº 49.017, que determina regras mais rígidas de quarentena para cinco cidades do estado: Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe e São Lourenço da Mata. Ogoverno respondeu que as cidades foram definidas por critérios epidemiológicos, mas que apoiaria a eventual decisão da prefeitura de decretar quarentena, o que não havia sido feito até ontem.

O Diario de Pernambuco visitou a cidade nesta quinta-feira e, mesmo que Paulista não apresente um número de isolamento social baixo – de acordo com o ranking montado pelo Ministério Público de Pernambuco –, totalizando 50,8% de respeito às regras de quarentena determinadas pelo estado, muitas pessoas foram encontradas pelas ruas sem necessidade. A feira livre na Rua Siqueira Campos tinha aglomerações de clientes e ambulantes, mesmo com agentes da prefeitura no local.

“As pessoas não estão obedecendo. Eu só deixei minha casa porque precisei vir à lotérica receber meu salário e pagar as minhas contas, mas sempre vejo Paulista cheia. Eu sou kombeira e meu marido ambulante. Estamos evitando ao máximo deixar nossa casa. Quanto mais nos cuidarmos, mais rápido sairemos dessa”, diz Maria Eduarda Pereira, de 19 anos.

Alguns bares e lojas de tecido funcionavam ao público na tarde de ontem. A Igreja de Santa Isabel, na Av. Senador Salgado Filho, principal cartão postal de Paulista, recebia fiéis. Na orla da praia do Janga, no Litoral Sul do município, pessoas se exercitavam e passeavam com a família e/ou seus animais. A maioria usava máscaras. “Cumpro o isolamento, mas venho para a orla pelo menos três vezes por semana para praticar exercícios. Antes praticava todo dia. Assim como eu, muitas pessoas deixaram de frequentar o calçadão, está cada vez mais vazio”, diz o auxiliar jurídico João Gomes, de 47 anos. “Eu apoio os bloqueios em Paulista. Me sentiria mais seguro. Não entendo porque a cidade ainda não entrou no lockdown como as outras”, completa.

Alguns pescadores também buscaram as praias da cidade. Uns tentavam garantir o sustento, outros buscavam lazer. O pintor José Ferreira foi à praia de Conceição com seu filho e netos. Após ter pego coronavírus e ter se mantido em observação por 20 dias, ele quis ver o mar na companhia da família. “Eu só não fui embora porque Deus não quis. Eu sei que a quarentena é necessária para que mais pessoas não peguem a doença, mas não sei se Paulista consegue manter um lockdown. Tive dificuldade de achar atendimento médico quando tive falta de ar, o Hospital de Campanha não funciona”, disse. “Essa doença é séria, tem pessoas morrendo. O governo precisa olhar para a gente.”

A prefeitura de Paulista informou que diariamente realiza abordagem educativa em populares que estejam em aglomeração e fiscalização para fechamento de comércio não essencial. A ação integrada conta com gestores de várias secretarias, como Segurança Cidadã e Defesa Civil e Desenvolvimento Urbano, além do Procon municipal, Policia Militar, Bombeiros e integrantes da Operação Lei Seca.  “Esta semana atuamos em vários bairros, como o Centro da cidade, Mirueira e as áreas das praias do Janga, Pau Amarelo e no Conjunto Beira Mar, onde fechamos diversos comércios que não estão com o funcionamento previsto no decreto municipal. Nesta quinta, 21, atuamos em Jardim Maranguape e Maranguape I. Nestes dois bairros também pedimos para fechar salão de beleza, bancas de bichos e lojas de roupas. Abordamos diversos transeuntes para orientar sobre o correto uso da máscara. Nos finais de semana atuamos nas feiras livres do centro e do Mercado de Paratibe.”
 
Pedido de lockdown

No documento enviado ao governador Paulo Câmara, o prefeito Junior Matuto destaca que embora tenha adotado diversas medidas no município, os números de infectados e de óbitos na cidade crescem. De acordo com a assessoria de impresa, Paulista é o quarto município da Região Metropolitana do Recife (RMR) com  mais casos de Covid-19.