VIDAS NEGRAS IMPORTAM » Medo e racismo, uma dupla inseparável O medo é o sentimento intrínseco de quem tem a pele mais escura. Andar na rua ou entrar numa loja podem ser motivos de constrangimento e hostilidades

Wladmir Paulino
Especial para o Diario

Publicação: 21/11/2020 03:00

Júlio César Santos Lima conversava com os amigos num shopping center e afirmava que ali era um prato cheio para o racismo estrutural. Como todos os outros do grupo eram brancos, ele propôs uma experiência: todos entrariam numa das lojas consideradas mais caras do centro comercial, separados, como se não se conhecessem, para observar as reações.

“Ainda no corredor, quando me aproximava, os seguranças já estavam olhando para mim e deduzi o motivo. Mesmo assim entrei na loja e, onde eu ia, eles iam atrás. Os outros, brancos entraram sem que nada acontecesse. Eu me deslocava nas seções da loja de propósito para ver a reação deles”.

A cena descrita acima é uma das situações mais comuns para quem tem a pele na cor mais escura, seja no Recife, São Paulo ou Nova York. O episódio terminou com Júlio interpelando seus perseguidores. “Eles disseram que era impressão minha, que não estavam me seguindo. Quando saímos da loja, meus amigos admitiram e entenderam que era racismo. Apesar de ter questionado fiquei muito abatido, só queria sair dali porque as pessoas me olhavam não como alguém que estava sendo seguido injustamente, mas desconfiando que eu pudesse fazer alguma coisa errada. Tenho muito medo de estar em determinados espaços porque, mesmo tendo informação para me defender, o racismo é tão danoso que em alguns momentos você fica sem forças”.

Júlio César é estudante de ciências biológicas da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde ingressou através do sistema de cotas, e em 2023 ou 2024, a depender da pandemia, se tornará o primeiro membro da família a ter um diploma de curso superior. Filho, neto e irmão de negros, a intimidação no shopping foi apenas mais uma numa longa lista que inclui abordagens agressivas quando está andando na rua, descer do ônibus para averiguação, acusações de vitimismo e ‘brincadeiras’.

O jovem mora na Vila do Sesi, no Ibura de Baixo, Zona Sul do Recife, com os pais, um irmão e uma irmã, ambos mais novos. Sandro, o pai, de 48 anos, está desempregado. A mãe, Márcia, de 42, é auxiliar de serviços gerais. Robert Henrique, o irmão do meio, é bombeiro civil e tem 20 anos. A caçula é Maria Eduarda, estudante do ensino médio na rede estadual de ensino, de 16. Juntos formam a típica família negra num país racista: moradores de subúrbio, com limitações financeiras e a quem quase nunca a existência é reconhecida.

Uma das lembranças mais antigas do filho mais velho vem do início da adolescência. Ele e o irmão, por volta dos 13 e 12 anos, respectivamente, voltavam da casa da avó. “Fomos buscar goma para fazer tapioca”, lembra. Voltavam a pé, perto da BR-101, quando policiais numa viatura pararam para o tradicional interrogatório: ‘vêm de onde?’ ‘vão para onde?’ ‘por que estão aqui?’ “Mas isso de uma forma muito agressiva, gritando e com armas apontadas para nossas cabeças. Éramos duas crianças. Fiquei com muito medo e morrer”.

A mãe de Júlio não generaliza, mas sabe muito bem que esse contato hostil é tanto comum como anterior ao seu filho. “Eu sempre digo: não saia sem um documento de identificação. Uma das coisas que mais tenho medo é que um filho meu apanhe de policiais. Não estou generalizando, sei que existem boas pessoas. Mas negro e filho de pobre não tem vida fácil, precisa saber lidar com muitas situações”, pontua.

Ele foi crescendo e as situações ganhando o contexto de acordo com a faixa etária. Se na infância e início de adolescência eram idas para a escola ou casa de parentes, o começo da vida adulta trouxe outros cenários, mas o enredo não muda. “Indo ou voltando para a faculdade já perdi a conta de quantas vezes, quando o ônibus foi parado, eu descer para ser revistado”.

Para o universitário esse é o momento em que o racismo fala mais alto porque, quando olha para os lados só vê gente da mesma cor tendo bolsa aberta e revirada na busca por algo que confirme a suspeita de que aquelas pessoas não podem estar apenas se deslocando de um lugar para o outro como todas as outras – não negras. “Primeiro eu fico nervoso. Não por estar com alguma coisa, mas por suspeitarem de mim. Pode estar com qualquer roupa, pode estar pintado de ouro que, mesmo assim, vão desconfiar”.

"Mesmo tendo informação para me defender, o racismo é tão danoso que em alguns momentos fico sem forças”
Júlio César Lima, universitário

"Eu sempre digo: não saia sem um documento. Uma das coisas que mais tenho medo é que um filho meu apanhe”
Márcia Lima, auxiliar de serviços gerais