João Bosco faz, do violão, sua morada Com "astral de caramujo", músico é guiado por violão em disco de memórias e fala que "foi muito difícil de aceitar" a morte do parceiro Aldir Blanc

Publicação: 29/06/2020 03:00

João Bosco não pôde mostrar a nova versão de Profissionalismo é isso aí a Aldir Blanc. “Ele já tinha aprovado essa ideia de ver o Profissionalismo em blues”, diz o cantor e compositor. “Mas não pôde ouvir essa gravação. Assim como não ouviu a (versão de) Cordeiro de Nanã. Ele tinha se mostrado muito curioso.”

Bosco lembra seu parceiro musical ao longo de cinco décadas, com quem sua obra se confunde de muitas formas, que morreu vítima da Covid-19 em maio. O músico chegou a adiar o novo disco, Abricó-de-macaco, em que estão as faixas que ele queria mostrar a Blanc, mas lançou o álbum - acompanhado por registro audiovisual - no último dia 15. “Foi muito difícil de aceitar”, ele diz, sobre a morte de Blanc.

Profissionalismo é isso aí, lançada em 1980 pela banda Black Rio, é uma das composições de Bosco e Blanc recriadas em Abricó-de-macaco. Mas o disco, feito em sua maioria no ano passado, é amplo e tem “cara de nação”, diz Bosco. Com 14 regravações e duas inéditas, Abricó-de-macaco traz versões renovadas de faixas de Bosco, como Mano que zuera e Cabeça de nêgo. E passa por outros compositores, da recriação do afro-samba Água de beber à versão elétrica de Forró em Limoeiro.

“Nunca acreditei em arte nostálgica. Acredito em memória, mas sempre olhando para a frente, com suas observações intuitivas de hoje. E tudo acontece de forma intuitiva. É como se o violão me conduzisse”, ele afirma.

Entre as lembranças estavam o samba-enredo Chora, chorões, homenagem ao choro do desfile da Estácio de Sá em 1985, e um show de Miles Davis ao qual ele assistiu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em maio de 1974. A obra de Davis e a de Hermeto Pascoal influenciaram Horda, uma das inéditas do disco. Mais agressiva, foi feita a partir do documentário O mês que não terminou, que tem trilha assinada por Bosco. “É uma música mais guerreira, um distúrbio dentro da ordem oficial”, diz, lembrando junho de 2013, tema do filme dirigido por Raul Mourão e Francisco, filho de Bosco.

A outra inédita é a faixa-título, um samba sem refrão que se desenrola como um fluxo de consciência. Ou, como diz Bosco, um “samba de carretel” - “quanto mais linha você puxa, mais samba vem” -, no estilo de Linha de passe, uma das colaborações mais conhecidas dele com Blanc.

Com letra de Francisco Bosco, Abricó-de-macaco descreve a paisagem urbana do Rio, do futebol na areia aos passinhos do funk. É a vida que existe “do firmamento ao chão”, uma ideia de abrangência que acompanha o disco. O título vem de um fruto, que nasce na Amazônia e corre risco de extinção. Bosco vê a árvore em praças do Rio.

“Existe uma lenda de que seremos uma nação mais humana, de que a divisão de renda vai ser melhor. Você fica esperando, do tipo ‘agora vai’. E esse fruto nasce também assim - bloqueado, fechado, obscuro. Só que ele se abre e fica bonito de ver. É uma reflexão que serve como nação.” No fluxo do violão e das memórias de Bosco, há ainda a mescla de composições próprias antigas com algumas faixas de outros autores.

ORGÂNICO
O processo de reunião e recriação do repertório, diz o músico, é orgânico e está inteiramente ligado ao seu instrumento favorito. Como Blanc diz no samba Sonho de caramujo, Bosco sê vê como um “caramujo musical”, que vive “dentro da casca” do violão. “Deixo o violão me conduzir, porque é onde moro. E acredito naquilo. Você acaba vivendo no mundo da intuição.”

Ao comentar a falta dos pêsames da Secretaria Especial da Cultura, então comandada pela atriz Regina Duarte, à família de Aldir Blanc, Bosco se lembra de uma bebedeira com Zeca Pagodinho. “Em determinado momento, falei ‘vou embora, senão não vou achar nem minha casa’. Ele disse assim: ‘Que é isso, depois que a gente erra o prédio, qualquer andar serve’. Não adianta você mudar os andares. Pode trocar um ministro pelo outro. A tentativa é que, em 2022, consigamos mudar de prédio. Quanto à música, seguimos cantando.” (Folhapress)