Bom dia, sociedade! Criada há oito anos, a página Brega Bregoso promove a cena e o estilo proposto pelo ritmo

EMANNUEL BENTO
emannuel.bento@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 01/08/2020 03:00

No começo da década de 2010, os “internautas” - termo já envelhecido - pernambucanos saíam do Orkut, que inaugurou a experiência das redes sociais no Brasil, e migravam em massa para o Facebook. Os artistas da cena brega local investiam nas carrocinhas de som, mas já começavam a usufruir dos novos horizontes de divulgação - Blog dos Bregueiros, 4Shared, Palco MP3, YouTube. Era um ambiente próspero para o surgimento de páginas que agregassem um certo estilo de vida proposto pelo brega, ritmo que também envolve comportamento, dança, consumo, entre outras características naturais de uma cena musical. Ainda naquela época, o Brega Bregoso atendeu a essa demanda.

Há oito anos, em julho de 2012, a página foi criada no Facebook pelos recifenses Eliabe King, do Alto José Bonifácio, Zona Norte do Recife, e Alexandre Vinicius, então morador do Ibura, Zona Sul. O intuito era publicar conteúdos humorísticos que dialogassem com as periferias do Grande Recife, sempre fazendo referências a músicas, fotos e memes de MCs. A identificação foi instantânea. Hoje, o Brega Bregoso conta com quase 1 milhão de seguidores no Facebook e também no Instagram.

“Em uma semana, a página no Facebook já explodiu, sempre com postagens irônicas. Eu queria fazer a favela rir de si mesma”, conta Eliabe, de 28 anos. “Já tínhamos essa característica de linguagem, de escrever propositalmente errado. Queríamos mostrar que alguém estava na internet, mesmo sem saber escrever o português formal. Isso criou uma forma lúdica de tratar sobre as coisas.”

Eliabe e Alexandre se conheceram no fórum sobre futebol Cartola FC, uma das mais famosas comunidades do Orkut. “Fazíamos tópicos de humor. Pegamos intimidade por lá e decidimos criar o Brega Bregoso”, relembra Alexandre, 24. “No começo, a identidade do criador da página era anônima. Tínhamos fama de ‘bad boy’ por perturbar com todo mundo. Com o tempo, entendemos que isso não é tão agradável comercialmente, então hoje trabalhamos com essas resenhas que são nossas. O foco é no brega, no passinho e em outros aspectos do dia a dia da periferia.”

O Brega Bregoso foi expandido para as outras redes (Instagram e Twitter) e começou a ganhar tons mais “profissionais” em 2017. “Nós poderíamos ter deixado de fazer, mas essa intenção de profissionalizar fez a página perdurar até hoje. Nesse período, muitas páginas cresceram e caíram. Eu fui um pouco resistente de dar o braço a torcer e limitar um pouco o conteúdo”, diz Eliabe.

Hoje, o Brega Bregoso atua como plataforma de divulgação de MCs, dançarinos e influenciadores digitais ligados ao universo do brega-funk. Os criadores citam os humoristas Zé Alterado e Anderson Neiff e os dançarinos Tifany Bandim, Alê Oliveira, Clara do Passinho e VT Kebradeira como alguns nomes que ampliaram seus públicos através da página. Eliabe também chegou a lançar a carreira do DJ Bregoso (atualmente independente) e empresariar o MC Biel Excamoso. O projeto tem uma boa relação com a Tropa, produtora de Shevchenko e Elloco, responsável por agenciar a carreira dos principais artistas que levam os hits do passinho aos palcos. O avatar do @bregabregosoo, inclusive, traz a imagem da dupla.

Também é possível dizer que o Brega Bregoso é um dos personagens centrais no endosso de uma estética hegemônica entre os jovens da periferia do Grande Recife, uma espécie de eixo comportamental para projeção de novas celebridades virtuais periféricas. É o que Thiago Soares, professor do departamento de comunicação da UFPE e autor do livro Ninguém é perfeito e a vida é assim - A música brega em Pernambuco, chama de eixo “masculino-provocador” do brega. “É o homem ‘galeroso’, moleque, jovem, que dispõe de uma performática aderente e sedutora.”

Por conta da expansão territorial do brega-funk, a página também é popular em capitais influenciadas pelas tendências emanadas do Recife, como João Pessoa, Natal, Aracaju e Maceió. “Após oito anos, temos planos para investir na produção de conteúdos autorais, como vídeos gravados em comunidades, entrevistas com influenciadores e personagens que costumam aparecer na página”, finaliza Alexandre.