50 anos do movimento armorial A arte erudita brasileira baseada no popular, idealizada por Ariano Suassuna, trouxe legado para diversas manifestações culturais, como literatura, música, dança, teatro, artes plásticas, arquitetura e cinema

EMANNUEL BENTO
emannuel.bento@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 17/10/2020 03:00

Há 50 anos, em 18 de outubro de 1970, Ariano Suassuna discursava na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no bairro de Santo Amaro, no Recife, no evento que ficou marcado como o lançamento do movimento armorial, que pregou a elaboração de uma arte erudita brasileira baseada no popular. Agregando várias linguagens, os princípios armoriais impactaram a arte nordestina e nacional nas duas décadas seguintes. O termo vem do universo da heráldica, ciência que cataloga brasões de armas e famílias, resgatando um certo imaginário medieval e monárquico que acompanha a obra de Suassuna.

“São esmaltes, limpos, nítidos, pintados sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercado por folhagens, luas e estrelas”, explicou Ariano, no discurso registrado na edição de 20 de outubro de 1970 do Diario. O artista ainda criticou a demolição de construções históricas recifenses do século 18, conclamando as novas gerações para preservação da antiga arquitetura nordestina. O evento contou com concerto da Orquestra Armorial de Câmara, sob regência de Clóvis Pereira. Numa sala junto à sacristia, uma exposição de arte armorial trouxe trabalhos de diversos pernambucanos.

As características do armorialismo já vinham sendo elaboradas por Suassuna desde os anos 1940, com o resgate do barroco de origem ibérica e da arte popular nordestina, linguagens tidas pelo escritor como suportes da cultura nacional. Mas o movimento só surgiu de fato no seu período na chefia do Departamento de Extensão Cultural da UFPE. A proposta soava como continuidade a valorização de elementos populares já existente desde o início do século 20, com Gilberto Freyre, no Recife, e Mário de Andrade, em São Paulo.

“Naquele contexto havia uma desvalorização da cultura popular, que era vista como algo muito folclórico. Ariano resgatou essas linguagens para fazer com que as pessoas reconhecessem os seus valores”, explica o poeta, ensaísta e professor recifense Carlos Newton Júnior, um nome da terceira geração armorial. “Ariano estabeleceu princípios, e os artistas seguiram. Os princípios não eram garantia de grande obra, pois isso era responsabilidade dos autores. Cada artista procurou o seu caminho.”

Com apoio da imprensa e de instituições públicas em Pernambuco, o armorial deixou um legado na forma como a própria máquina pública enxerga a cultura em geral. Para Newton, o legado também é nacional. “Ariano tinha a noção de que os artistas de outras regiões podiam usar as manifestações populares de suas áreas.”

O movimento deu origem ao Quinteto Armorial, que levou as sonoridades da rabeca e viola sertaneja à música de câmara. Antonio Nóbrega entrou para o grupo a convite de Ariano em 1971, como violinista. “Essa experiência me despertou um interesse pelo universo popular, algo que me acompanha até hoje”, diz Nóbrega, que recentemente lançou Rima, álbum que se inspira na poesia rimada brasileira, incluindo sextilha, embolada e galope à beira-mar.

“Por ser um movimento que começou no Nordeste e também ser muito ligado à figura do Ariano, o armorialismo acabou tendo uma visão discreta em termos nacionais. Se ele tivesse sido deflagrado no Rio ou em São Paulo, talvez tivesse uma abrangência maior”, opina o artista. “Mas isso também não quer dizer que não tenha influenciado. No Paraná, existe o Rosa Armorial. No Rio, existe o grupo Gesta.”

O armorial está dentro de uma tentativa de fusão do mundo popular com a cultura exterior e universal que acompanha a história da arte no Brasil. “Vemos isso na Semana de 1922, no tropicalismo e no manguebeat. O que aconteceu com o armorial é que a palavra ‘erudito’ pode deslizar para o elitismo ou alta cultura. Isso trouxe um desconforto para o termo, mas Ariano sempre deu um contorno popular”, diz. Para Nóbrega, o armorialismo deveria inspirar a busca de uma arte com “mais significado, mais rica e que nos coloque para pensar em um país tão desigual como o nosso.”
 
As fases
 
Experimental (1970-1980)

Literatura de Ângelo Monteiro, Janice Japiassu, Marcus Accioly, Raimundo Carrero e Maximiano Campos, além do próprio Ariano Suassuna. Na música, a Orquestra e o Quinteto Armorial. Nas artes visuais, Francisco Brennand, Miguel dos Santos, Fernando Lopes da Paz e Gilvan Samico. O cinema ficou com George Jonas, diretor do longa A compadecida (foto), de 1969.

Romançal (1980-1995)

Baseada no período do qual Suassuna é nomeado secretário de Cultura do Recife e funda o Balé Popular do Recife, hoje dirigido por André Madureira. A fase marca o fim do Quinteto Armorial (foto) e a formação da Orquestra Romançal Brasileira, que por fim se tornou o Trio Romançal.

Arraial (1995 - em diante)

Marcada pela presença de Ariano na Secult-PE e por nomes como o escultor Arnaldo Barbosa, os pintores Dantas e Zélia Suassuna, a Trupe Romançal de Teatro e Antônio Nóbrega (foto), que integrou o Quinteto Armorial.