A força do modernismo pernambucano Em novo livro, o pesquisador Bruno Albertim resgata a história da arte modernista sob o viés pernambucano, que muitas vezes acabou invisibilizado pela hegemonia de São Paulo

Rostand Tiago
rostand.filho@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 05/08/2022 03:00

A historiografia da arte brasileira confere a São Paulo, sobretudo aos nomes envolvidos na Semana de 1922, a grande força hegemônica do modernismo, sempre passando pelos nomes de Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Villa-Lobos e Di Cavalcanti. Apesar de alguns nordestinos, como o pernambucano Vicente do Rego Monteiro, terem seus destaques dentro desse quadro, há toda uma outra história modernista que acaba sendo invisibilizada, como a arte modernista pernambucana.

É no resgate dela que o crítico de arte e pesquisador Bruno Albertim lança o livro Pernambuco Modernista e assina a curadoria da exposição Semprenunca fomos modernos, ao lado de Rinaldo Carvalho, Maria do Carmo Nino e Maria Eduarda Marques, hoje, no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe). Ambos os projetos escrevem o capítulo pernambucano do modernismo a partir de Vicente, Lula Cardoso Ayres e Cícero Dias, passando por Francisco Brennand, Tereza Costa Rêgo, João Câmara e diversos outros nomes que atravessam o último século, chegando também em artistas contemporâneos com posturas modernistas.

“O livro traz uma série de questões que se confundem com a exposição, vindo justamente informar ao Brasil que o modernismo paulistano não é único, apesar da centralidade hegemônica que tem na história da arte brasileira. Existem vários, e Pernambuco é um deles, muito contundente, sendo talvez modernista antes de São Paulo”, elabora Bruno Albertim, em entrevista ao Viver. “Mas esse modernismo nosso tem uma estética e uma ética muito própria, com muitos artistas que foram modernistas por longas durações, continuando a fazer uma arte figurativista, com uma paleta de cores muito própria das nossas luzes e muito preocupado com as identidades da terra”, completa.

A exposição conta com 109 obras, dispostas em 12 núcleos pensados a partir de eixo argumentativo, como as paisagens enquanto identidade - Pernambuco, por sinal, foi pioneiro nas Américas na pintura de paisagens, a partir das influências holandesas, defende Albertim. Outros eixos são a tomada de consciência de classe, sobretudo com a figura de Abelardo da Hora, e a “nunca fomos modernos”, com os artistas do século 21 que tomam partido de características modernistas pernambucanas, mas com questões identitárias pernambucanas e ressaltando o projeto de exclusão do modernismo. Nele, estão situados artistas como Clara Moreira, Fefa Lins, Diogum, Juliana Lapa e Max Mota.

“Encontramos esse artistas tomando questões do modernismo, como o figurativismo, o retrato, as cores, mas trazendo grupos sociais que foram invisibilizados por artistas anteriores. Ali indo até os anos 1960, o modernismo pernambucano é a ilustração da erudição de suas elites, que apesar de apresentar algumas questões de empatia, alteridade e preocupação com o popular, é composta majoritariamente por homens brancos, heterossexuais, oriundos de uma elite açucareira”, explica Bruno. “Esses novos artistas buscam trazer novas identidades que vão além daquela regionalista, com afirmativas sobre novos discursos de sexualidade, gênero e raça.”

Os paradigmas da historiografia da arte brasileira não passaram por nenhuma mudança radical nos últimos anos, pelo menos no tocante ao modernismo. Mas para Bruno, há sensibilidades abertas nas últimas décadas que podem se tornar um caminho para pautar outras modernidades artísticas fora do eixo Sudeste, em um movimento que vem dando seus primeiros e significativos passos.

“Temos nomes como Clarissa Diniz, que faz um trabalho genial de curadoria sobre essas questões de hegemonia, e o próprio Paulo Herkenhoff, que já diz que Pernambuco não precisou da cartilha da Semana de 22 para ser moderno, já tendo seus índices e exercícios de modernidade. Mas ainda não há um exercício de reescritura dessa história. Então, essa é minha tentativa humilde e petulante, de fazer esses projetos para que sejam um marco nesse reescrever a história da arte brasileira e pernambucana”, conclui Bruno.

O lançamento do livro e abertura da exposição estão marcados para as 19h. A exposição ficará em exibição até 25 de setembro, dentro dos horários de visitação do museu, de terça a sexta, das 9h às 17h, sábado e domingo, das 14h às 17h.