Ciência e Saúde

Como uma Barbie nas partes íntimas Internet, filmes e seriados fazem com que mulheres busquem cada vez mais mudar suas próprias vaginas

Amélie BAUBEAU e Mariëtte Le Roux
DA AGÊNCIA FRANCE-PRESSE

Publicação: 18/02/2017 03:00

 (A VÊNUS ADORMECIDA, DIEGO VELÁZQUEZ/REPRODUÇÃO)

Confidenciais há algum tempo, os tratamentos estéticos da vagina são cada vez mais populares, o que levanta questões sobre a percepção da “normalidade” e os riscos médicos envolvidos. Em 2015, mais de 95.000 labioplastias (cirurgia e/ou injeções nos pequenos lábios vaginais) e mais de 50.000 vaginoplastias foram praticadas no mundo, de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Estética (Isaps).

Quase inexistentes há cinco anos, tais procedimentos ocupam agora o 19º e 22º lugar no ranking das operações mais praticadas. Nos Estados Unidos, cerca de 9.000 labioplastias foram realizadas em 2015, 16% a mais que no ano anterior.

Esta intervenção consiste, geralmente, em reduzir o tamanho dos pequenos lábios a laser (fala-se também de ninfoplastia). “Se você tivesse me dito sobre este tipo de procedimento nos anos 1980, eu teria o chamado de louco”, admite Renato Saltz, cirurgião plástico perto de Salt Lake City (EUA) e presidente da Isaps.

“As mulheres se preocupam muito mais com a aparência de seu sexo”, observa Nolan Karp, um cirurgião em Nova York e membro do conselho da Isaps, que enxerga neste fenômeno a influência da internet. “Antes da internet, quantas mulheres viam uma mulher nua em sua vida?”, pergunta ele. De acordo com o cirurgião, as pessoas hoje em dia “compreendem melhor o que é normal, o que é belo e o que não é”.

Uma “normalidade” difícil de estabelecer, uma vez que a aparência desta parte da anatomia feminina pode variar enormemente.

Se considerarmos como “normal” uma vagina onde os pequenos lábios “não ultrapassam” os grandes lábios, então apenas 20% das mulheres satisfaz este critério, reconhece Nicolas Berreni, ginecologista-obstetra em Perpignan, durante o congresso de medicina estética IMCAS em Paris.

Anatomia perfeita
Esta busca pela anatomia “perfeita” é “preocupante”, considera Dorothy Shaw, ex-presidente da Sociedade de Obstetras e Ginecologistas do Canadá (SOGC). A vagina apresentada como modelo “não tem nenhum pelo e é muito plana”, como a das meninas. Uma aparência distante da realidade, diz.

Ela teme que adolescentes, cujo desenvolvimento físico ainda não está completo, recorram a esta prática. É comum, durante a puberdade, que os pequenos lábios se tornem mais proeminentes, antes que os lábios cresçam por sua vez.

De acordo com um estudo publicado em 2005, com base numa amostra de apenas 50 mulheres, o comprimento dos pequenos lábios variava de 2 a 10 cm e sua largura de 0,7 a 5 cm. Além disso, “é surpreendente ver cirurgiões afirmarem que uma operação pode permitir obter uma vagina de aparência ‘normal’”, ressaltam seus autores, convidando seus pares a disseminar estes resultados para as mulheres que consideram realizar uma intervenção cirúrgica.

Mas a mania parece ter vindo para ficar, e se algumas mulheres realmente sofrem com a fricção de seus pequenos lábios hipertrofiados, este argumento é muitas vezes uma desculpa para preocupações estéticas. “Em 40% dos casos, as mulheres que procuram uma ninfoplastia queixando-se de dor mentem”, assegura Berreni. “O que elas querem é uma vagina de Barbie, onde você não pode ver os pequenos lábios”, acrescenta.

Ressecamento
O desconhecimento da mulher em relação à sua anatomia e a falta de intimidade com o próprio corpo interferem na vivência plena da sexualidade. Pesquisa feita pelo Ibope mostrou que 88% das brasileiras entrevistadas tinham algum grau de desconhecimento sobre o ressecamento vaginal: 20% não sabiam o que é e 68% conheciam pouco. Entre as que tiveram a complicação (29%), 40% disseram não ter procurado o médico por achar que era normal, 86% afirmaram que o ginecologista nunca havia tocado no assunto de forma espontânea nas consultas de rotina e 64% buscaram informações sobre ressecamento vaginal na internet. O problema é frequente no pós-parto e pode ocorrer também em razão do uso de medicamentos. (do Correio Braziliense)