Ciência e Saúde

Agroflorestas, a ode de amor à terra Sistema que mistura vegetação nativa a plantações aumenta produtividade de sítios pernambucanos

Rostand Tiago
rostand.tiago@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 21/10/2017 03:00

Quando Lenir Ferreira Gomes Pereira e Jones Severino Pereira se casaram, em 1981, trocaram votos entre si e passaram a compartilhar as duas vidas também com a terra. Dos frutos que geraram juntos, nasceram dois filhos e uma plantação, com macaxeira, inhame, batata, feijão e milho. Assim como num relacionamento, porém, tratamentos tóxicos acabaram por gerar frustração. Após primaveras trabalhadas em produtos químicos, queimadas e enxadas, o plantio dava cada vez menos retorno. Como casal que reencontra o caminho dos braços, a terra voltou a dar frutos. Não apenas os cultivos originais, que ganharam novos “vizinhos”. No mesmo punhado de terra, cajá, sapoti, cupuaçu, manga, caju, banana, mamão e limão passaram a integrar a família: 13 toneladas por ano. Descobriram ali, 13 anos depois do casamento, o sistema agroflorestal de plantação e redescobriram a tal história de amor que compartilhavam.

O modelo implantado no Sítio São João, em Abreu e Lima, foi pioneiro em Pernambuco. Ele consiste em abrir mão do cultivo único para que haja variedade de plantios, promovidos pelo homem, e vegetação nativa. A propriedade hoje apresenta mais de 100 espécies que rendem hortaliças, frutos e grãos, graças ao sistema, que visa alcançar um modelo de produção que traga sustento para o agricultor e recupere e preserve a natureza, com um salto não apenas qualitativo, mas quantitativo.

A façanha no mundo da agroecologia envolveu visitas à Bahia para aprender sobre a interação da mata nativa com a produção pretendida e até uma consultoria do agricultor e pesquisador suíço Ernst Gotsch, que apontou os resultados e as próximas ações do casal. “Ele disse que o solo ‘tava’ bom. Era só plantar mais capim e forrageira para continuar o trabalho”, lembra Lenir. Porém, o estímulo recebido não era comum vindo de outros agricultores. “As pessoas muitas vezes chamavam a gente de loucos, diziam que era um serviço de preguiçoso porque ‘só tem mato’”, diz, sobre comentários feitos durante o processo de recuperação do solo.

A percepção de que o amor e o tratamento adequado à terra recuperariam a possibilidade de voltar a viver da agricultura não os deixou desestimular. Deu certo. A família voltou a produzir, agora o ano todo. Os dois filhos do casal, Juvenal, 35 anos e Verônica, 34) puderam ter educação superior (ele, em biologia e ela, em geografia). “É um trabalho que não dá apenas retorno financeiro. Traz um retorno de autoestima, de bem-estar com a vida”, aponta.

Em 24 de maio de 2017, Jones faleceu, mas viu os frutos das lições que plantou. A exemplo da Associação Agroecológica Terra e Vida, criada por ele e Lenir. Fundada em 2009, ela é formada por 22 famílias agricultoras que realizam troca de conhecimentos, mutirões e reuniões. Além da associação, Jones e Lenir também estiveram desde o lançamento do Espaço Agroecológico das Graças, a primeira feira orgânica do Recife, fundada em 1997, e agora o pioneiro também nomeia um curso para quem deseja ingressar na área da agroecologia, o Curso de Agrofloresta Jones Severino Pereira, promovido pelo Centro Sabiá na Zona da Mata, Agreste e Sertão de Pernambuco. A iniciativa promove capacitação teórica e técnica sobre o assunto e tem vagas abertas previstas ainda para o segundo semestre de 2017. O legado do corajoso Jones germina de uma maneira diversificada e renovadora, assim como a plantação que semeou há 23 anos.

Monocultura x Agrofloresta
  • Monocultura
  • Maiores possibilidades de desgaste do solo
  • Colheita limitada pelo períodos de safra
  • Uso excessivo de agrotóxicos
  • Possibilidade de comprometimento da biodiversidade
  • Desmatamento para inserção da cultura
  • Alta necessidade de insumos externos
Agroflorestas
  • Busca por recuperação do solo
  • Diversidade de espécies permite colheita o ano todo
  • Livre de agrotóxicos
  • Busca manter o equilíbrio ecológico e a biodiversidade (vegetal e animal)
  • Plantação pensada para harmonizar com a mata nativa
  • Baixa necessidade de insumos externos