DOM JOO HENRIQUE DE ORLANS E BRAGANA 'Nosso sistema est depravado' Fotgrafo e empresrio

Leonardo Malafaia
Paula Losada
poltica@diariodepernambuco.com.br

Publicao: 26/05/2018 09:00

Longe do glamour que habita o imaginário popular quando se fala em realeza, um dos mais famosos integrantes da família imperial brasileira - do ramo Petrópolis -, Dom João Henrique de Orléans e Bragança, 64 anos,  bisneto da princesa Isabel e tetraneto de Dom Pedro II, vive em Paraty, no Rio de Janeiro. Lá, atua como fotógrafo e mantém uma imobiliária e uma pousada, onde tradicionalmente recebe escritores, personalidades e amigos.

Engajado politicamente, porém fiel ao seu posicionamento suprapartidário, o príncipe - que em sua juventude foi  surfista, e, desde a década de 1970, quando fez a sua primeira incursão a terras indígenas, mantém uma boa relação com os índios do Xingu, com os quais se comunica pelo WhatsApp - tem rodado o Brasil militando em prol da recuperação dos valores democráticos.

De passagem pelo Recife para fazer uma conferência no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, concedeu entrevista exclusiva ao Diario sobre a crise da democracia; corrupção e o perfil do próximo presidente do Brasil, bem como as duras medidas que terá que tomar para equilibrar as contas e promover o desenvolvimento do país.

Além disso, D. João também explicou a sua participação nos protestos pró-impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), realizados em 2015, e comentou sobre as reformas e atuação do governo Temer (MDB).

O senhor veio ao Recife para fazer conferência sobre a Formação do Brasil nação, nossas instituições e a crise política. Que análise o senhor faz sobre a atual crise vivida no Brasil e quais seriam as saídas para esse momento difícil pelo qual o país passa?
Essa resposta poderia durar duas horas. A crise política não é só no Brasil. Existe uma crise da democracia no mundo. A democracia está desprestigiada, porque grandes avanços que ela prometia não chegaram em vários países do mundo. Na própria Europa, a democracia “andou para trás”,  como na Polônia, Hungria, Rússia. Nos anos 1970, quando a gente achava que estava caminhando para uma democracia, para a igualdade, para uma melhor distribuição de renda, para a liberdade de imprensa, não foi bem assim. E, no Brasil, também. Então, estamos num momento muito complicado, difícil. Tem um lado bom: você tem liberdades, você tem redes sociais, que aproximam muito as pessoas, juntam ideias, mas, por outro lado, também tem a polarização. Ou você é “inimigo” ou é “amigo”. Não existe o respeito com a opinião do outro, do outro partido, da outra ideologia. Então, a crise brasileira está inserida nisso.

O senhor acredita que a Lava-Jato vai conseguir diminuir a corrupção no país?
É a mesma coisa de uma casa em que os pais não falam nada sobre o que os filhos fazem de errado: os filhos vão continuar a fazer; os vizinhos não vão denunciar, porque os pais não falam nada. Na hora em que você começa a prender gente, e você começa a dizer que isso é errado e que vai preso, e que vai preso qualquer um, que somos todos iguais, a população começa a mudar de perspectiva sobre a corrupção, que muitas vezes era tolerada. O famoso jeitinho, que existia em todas as classes, começa a diminuir. Então, nossa sociedade tem que mudar. O país está começando a mudar não através dos políticos, mas está começando a mudar através do povo brasileiro, de nós.

O senhor foi eleitor do PT e depois defendeu o impeachment da presidente Dilma. Por que essa mudança de posição?

Eu era muito jovem e o PT era um símbolo de renovação,  de ética, de respeito. Na época do Collor, era uma escolha difícil. Nunca acreditei no futuro do presidente Collor. Foi uma época, então, em que eu acreditei que o PT poderia mudar alguma coisa. Minha posição é sempre suprapartidária mas, como cidadão, eu voto. Mas minha posição é de respeito por todos os partidos. Eu não era a favor do impeachment da presidente Dilma. Eu era a favor da lei. Se a lei dizia que era permitido fazer isso, que fosse. O processo correu legalmente, tanto que foi autorizado, selado, pelo Supremo Tribunal. Então, não se pode dizer que foi um golpe. Pode-se dizer que foi (um julgamento) político. Mas dentro da lei. Então, é uma pena que numa democracia tão jovem como a nossa, a gente tenha tido dois impeachments de presidentes. Por isso, que falo sempre no sistema parlamentarista, no qual você troca de governo sem essa ruptura, sem essa crise que para o país, que para a economia.

O senhor acha que o modelo parlamentarista poderia ser adotado no Brasil? O país está preparado?
Não é tão simples e o Brasil não está preparado. O Brasil não está nem preparado para o presidencialismo que nós temos. Nós estamos num caos, que é esse presidencialismo de coalizão, de cooptação. É um sistema depravado, totalmente depravado. Não se espere que qualquer presidente que entre nas próximas eleições vá mudar o que nós queremos que mude do dia pra noite. A máquina tem que ser mudada. Nós temos uma máquina podre. Essa máquina atrai os homens podres. Nós não somos piores que os cidadãos do Canadá nem da Noruega. Não adianta dizer que nós somos piores. A máquina é que atrai os homens podres. A máquina atrai políticos que vêm para a vida pública para fazer carreira, para obter aposentadoria aos 52 anos, para ter uma aposentadoria com salário integral do último que recebeu; senador que tem serviço odontológico para ele e para a família pelo resto da vida…Então, não dá. Esse sistema não funciona.

Como seria feita a troca de sistemas políticos?
Nenhum sistema é perfeito. Hoje, a gente luta contra nossos governos. A gente tem que se dar conta que nos últimos anos, nas últimas décadas, a gente elege, vota e, depois,  tem que lutar para que eles sejam honestos, para que não roubem, para que não nomeiem 20 mil cargos públicos no DAS (sistema de cargos de confiança), quando na Inglaterra só tem 300. Óbvio que isso é poder, é dinheiro, é corrupção. Não vamos conseguir mudar isso de uma hora para outra. A classe política não vai largar esse osso tão fácil. O próprio PT, que era símbolo da ética, símbolo da honestidade, se juntou a Sarney. Se juntou a Paulo Maluf, procurado pela polícia do mundo inteiro. Então, é a decadência total de valores, de ética e de respeito ao cidadão brasileiro. Fizeram coisas boas? Fizeram, mas o fato de fazer coisas boas no governo é obrigação do governante. Não é favor nenhum. Então, as mudanças vão ser lentas, mas já estão acontecendo. Um exemplo é a cláusula de barreira, para conseguir tirar os partidos fisiológicos e só deixar os programáticos, aqueles partidos que realmente têm programa de governo, têm ideias para discutir, e não aqueles que só vendem o horário na televisão, que só vendem o seu voto na hora de aprovar uma emenda, um projeto do governo. Então, é lento, mas a luta já começou.

A própria democracia consegue, então, fazer esse resgate?
Está conseguindo. Mas é duro, é difícil.

Qual deve ser o perfil do novo presidente da República?
Nesse sistema que está aí, na realidade, em qualquer sistema político, mas mais no nosso, ele tem que ter articulação política. Não adianta colocar lá o sujeito mais honesto e mais capaz. Por exemplo: o Joaquim Barbosa. Todo mundo o admira mas, se não tiver articulação com o Congresso, você não governa. E, provavelmente, é capaz até de sofrer um impeachment. Então, temos que ter um presidente que tenha articulação no Congresso. E, ao mesmo tempo, não abra as portas para o fisiologismo e para a corrupção como todos os governos nos últimos anos têm feito, sem exceção.

O senhor já tem candidato?
Não tenho ainda. Mesmo se tivesse, guardaria. Mas está bem difícil.

Quais as medidas prioritárias que o novo presidente deverá tomar?
Todos os candidatos, eu tenho certeza, sabem que o país vai ter que sofrer reformas duras, que deixaram de ser feitas nos últimos anos. Vai ter que se cortar na carne. Tem que ter a reforma tributária, tem que ter reforma da Previdência, que é a mais importante delas todas. O Brasil gasta em previdência dinheiro que deveria ser da própria Previdência. O caixa da Previdência deveria pagar os aposentados, mas não. Você tira dinheiro da saúde, da educação, transporte público, infraestrutura para pagar aposentadoria a uma classe que se aposentou nos últimos 30, 40, 50 anos com leis que favoreciam você se aposentar com 50 ou 48 anos. A Europa inteira já fez essas reformas. Houve protesto? Sim. Houve carros queimados nas ruas, ônibus virado. Mas, se você não tiver a coragem de fazer isso, o país vai quebrar daqui a oito anos. Quebrar de não ter dinheiro para pagar luz de hospital. Aí vai ser uma revolução. Vai ser muito pior. O país vai levar 50 anos para se reerguer.

Qual a sua avaliação sobre o  Governo Temer?
O Governo Temer foi posto lá pelo PT. Também para ter as benesses que o poder dá. Uma grande parte do grupo do Temer está na prisão, assim como uma grande parte do grupo do Lula também está na prisão. Não adianta o PT reclamar do Temer, porque foram eles que puseram o grupo todo lá há anos. Geddel Vieira Lima foi vice-presidente da Caixa Econômica. Tenho certeza que nenhuma pessoa que tem amor ao dinheiro público poria Geddel como vice- presidente da Caixa, mas a Dilma o pôs lá. Esse sistema está acabado. Isso tudo tem que mudar. E está mudando devagarzinho. Houve algumas reformas importantes,  pontuais, como a lei de profissionalização das estatais, que  ainda são centros de nomeações políticas. Por que tantos políticos querem manter as estatais? Nomeação, poder. Corrupção e poder local. No Brasil inteiro. Quanto mais empresas públicas você tiver, mais os governos federal e estaduais vão ter que abrir vagas para todos os seus cabos eleitorais, nomear em empresas que acabam não sendo eficientes nem úteis para o país. Então, houve uma lei importante nesse sentido. Outro exemplo é a cláusula de barreira, que vem para tentar acabar com os partidos pequenos, que têm dois, três, cinco, oito deputados que só estão lá para vender seu voto, perder seu tempo e se corromper. Infelizmente, a reforma da Previdência não foi adiante. O próximo presidente vai ter que fazer. Qualquer que seja o partido. Então, nós estamos caminhando.

O senhor nunca quis ocupar um cargo público. Por que?
Não posso estar na política partidária. Sou muito mais útil para o país dizendo o que eu penso, mostrando que a democracia é a base do desenvolvimento de qualquer país. Eu acho que a minha mensagem pelo Brasil afora, como eu faço, é muito mais útil e sempre com posição de respeito aos partidos. É absolutamente necessária a existência de partidos, mas tenho uma firme posição suprapartidária. Que é uma característica de membros das famílias reais constitucionais da Europa.

Qual foi o principal legado do seu tetravô, Dom Pedro II, para o Brasil?

Tem um livro chamado Os virtuosos da República que mostra que, no Império, havia liberdade de imprensa, e que o golpe da República acabou com ela. Até então, era ensinado nas escolas como Proclamação da República. Hoje em dia, finalmente, está se falando em golpe. Não houve proclamação. Foi um golpe. Um golpe militar.  Um golpe sem maioria da população. Contra uma pessoa, o imperador Pedro II, que era muito querido e muito respeitado pela população, inclusive pela oposição, inclusive pelos republicanos. O período foi de muito debate político no parlamento da época, e esse livro mostra que muitos homens, como Prudente de Morais, Campos Sales, Rui Barbosa, que foram grandes nomes do Império continuaram como grandes na República porque aprenderam com o debate, com a discussão no parlamento, sem pensar em golpe, sem pensar em acordo, defendendo puramente suas ideias e é assim que se faz uma democracia.