ENTREVISTA

ENTREVISTA // MIRELA ÁVILA » 'Falar de câncer nas redes tem criado pânico' Nesta entrevista, a radiologista Mirela Ávila fala ainda sobre outro excesso: a quantidade de diagnósticos médicos

Silvia Bessa
silvia.bessa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 19/08/2017 03:00

Mirela diz que sempre soube que seria médica. Entre sete filhos, é a única que seguiu a profissão do pai, o renomado médico Lucilo Ávila, dono de um dos maiores laboratórios de diagnóstico do Nordeste. Quando pequena, ela passava as férias brincando de ser recepcionista. Quando acabou a faculdade, viu-se entre o desejo de seguir como cirurgiã ou especializar-se em radiologia para integrar a equipe técnica da grande estrutura já erguida pelo pai. Em um curso em São Paulo, descobriu sua paixão pelos estudos relacionados à mama. “Juntava o saber técnico à sensibilidade que a paciente precisa”, conta Mirela Ávila Gurgel, hoje responsável pelo setor de Imagem do Centro de Diagnóstico Lucilo Ávila Jr. e uma das mais jovens referências médicas na área do Brasil. Membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia, Mirela Ávila acaba de participar de um seleto grupo de estudos no qual cerca de quarenta médicos do mundo inteiro discutiram novas técnicas sobre biópsias mamárias – o Biopsy MasterClass 2017, nos EUA. Na entrevista a seguir, ela diz que “câncer é doença de rico”, comenta sobre o aumento da incidência de câncer de mama em mulheres com faixa etária antes de 55 anos, faz críticas sobre a política de saúde para prevenção de câncer no Sistema Único de Saúde, trata das novas tecnologias implementadas no Centro da família e revela suas maiores preocupações  quando se fala de erros e acertos recentes no que se refere a câncer de mama. A superexposição de diagnósticos por parte de pacientes em redes sociais é uma delas. Mirela Ávila diz que, em função das narrativas constantes, nota-se certo pânico entre mulheres – algumas capazes de fazer exames três vezes por ano. O excesso de diagnóstico, chamado de overdiagnosis, é outro dos temas. Diante das novas tecnologias e da oferta de possibilidades de doenças vistas precocemente, afirma Mirela,  o momento é para se buscar equilíbrio na quantidade de diagnósticos.

A radiologia tem uma proximidade muito grande com a oncologia. O câncer sempre foi um diagnóstico muito temido. Ainda existe tabu para com o câncer?
Mudou muito. Hoje há homens que estimulam as mulheres a fazerem exames. O próprio homem também passou a fazer mais preventivos. Há 20 anos a palavra câncer significava morte ou significava quimioterapia – que também mata. Era uma diagnóstico escondido porque denegria a pessoa. Hoje noto até uma inversão um pouco acentuada porque existe uma grande exposição do diagnóstico.

Acentuada de forma negativa?
É positivo em parte. É bom fazer exames, tentar diagnósticos precoces, mas o que estamos vendo é uma superexposição além do necessário nas redes sociais. Na verdade, a gente já vive uma exposição em excesso. Hoje a pessoa faz questão de dividir o que está comendo. Claro, a exposição faz com que pessoas se lembrem que estão com exames atrasados e este fator deve ser considerado mais positivamente que negativamente. Mas, à medida que as pessoas parecem estar compartilhando o dia inteiro um tratamento, estou começando a ver pacientes que estão criando pânico. Com esse pânico, há quem venha fazer exames três vezes por ano e o excesso também não é coisa boa. O excesso é a parte negativa. As mulheres abrem o Instagram (aplicativo de compartilhamento de fotos) e veem que naquele dia não sei quantas pessoas dizem que estão fazendo quimio. Afora isso, mudou porque a gente tem muitas possibilidades diagnósticas de cura. Tenho dito sempre que considero câncer um diagnóstico similar a um diagnóstico como diabetes. Já existem muitas drogas. Até o câncer metastático a gente troca a droga e o paciente responde bem. Temos pacientes com 10 anos, 15 anos com metástase e que continuamos acompanhando. Há muita tecnologia hoje. Obviamente, quando se está trabalhando com uma Ferrari, se tem possibilidade de mais diagnósticos.

Qual a sua opinião sobre o aumento da incidência no caso do câncer de mama, este que é sua especialidade?
O câncer de mama é doença de gente rica. O câncer em geral tem relação com obesidade, com alimentação, com carboidrato, gordura, baixa paridade - ou seja poucos filhos ou nenhum - e com pouco estímulo à amamentação, o uso do hormônio no período peri e pós-menopausa. Esses fatores são frequentes em pessoas com poder socioeconômico mais elevado; e eu estou falando de uma região em que o câncer de mama é menos frequente por questões socioeconômicas e hereditárias. A incidência do câncer de mama diminuiu a faixa etária em 10 anos. A gente agora está com grupo de uma faixa etária acometida entre 45 e 55 anos. A mulher brasileira tinha direito à mamografia pelo SUS a partir dos 40 anos e no último governo Dilma ficou a partir dos 50 anos. Ela tem direito a fazer a cada dois anos e antes disso só se ela sentir queixa palpável.

O que a senhora acha dessas limitações?
Isso é visto de forma muito criticada por toda sociedade médica. Visou-se a redução de custo mas não se explica de forma alguma, até porque a partir dos 40 anos já se tem uma incidência maior e é uma faixa na qual o câncer costuma ser agressivo. Agora deve-se dizer: em vários países do mundo é assim, mas é lamentável porque pesa o poder aquisitivo.

Há pouco, a senhora se reuniu com uma elite de médicos do mundo inteiro para tratar de câncer de mama. O que estava no centro das discussões?
Tratamos como lidar com uma lesão de mama. A lesão é diagnosticada por algum método, que seja ultrassonografia, mamografia ou ressonância. Quando você identifica um nódulo qualquer ou outro tipo de lesão, é indicado fazer uma biópsia e tirar um pouco de uma amostra daquela área para dizer do que se trata - se é lesão benigna ou maligna. Existem várias formas de se fazer esse material, algumas muito pouco invasivas, como a punção e agulha que tira muito pouco material. Ocorre que, muitas vezes, o material é insuficiente. Existe a biópsia de fragmentos, que diz com um material histológico do que se trata. Este tem uma acurácia diagnóstica muito boa e geralmente bate com o diagnóstico da lesão e é indicado na grande maioria dos casos. Mas existe uma biópsia chamada mamotomia, que é uma biópsia com aspiração a vácuo. Também é uma biópsia para tirar material e a gente usa uma cânula e faz sucção de material. Nessa biópsia a gente consegue tirar um material muito espesso que nos dá possibilidade de diagnóstico segura e, ao mesmo tempo, retira a lesão. É com anestesia local e é extremamente difundido no eixo Sudeste e no Centro-Oeste. No Nordeste, é pouco difundido. Temos aqui no Laboratório este método há 3 anos e recebemos gente de João Pessoa, Maceió, Fortaleza, do interior de todos os estados. Hoje nos Estados Unidos e Europa é um dos procedimentos mais utilizados em se tratando de biópsia mamária. É um procedimento feito em sala de exame mesmo com anestesia local, sem corte e muito simples. Então, nesse evento eles levaram experts do mundo para dar opiniões sobre a evolução dessa biópsia com aspiração a vácuo.

Quem esteve representando o Brasil?
Do Norte e Nordeste fui a única. Foram seis radiologistas do Brasil. No total foram cerca de 40 pessoas do mundo e o que debatemos foi sobre como podemos aprimorar o método deste tipo de procedimento. Aprendi muita coisa que me fez diferença no dia a dia.

Por exemplo?
Entende-se por consenso que se deve tirar o nódulo e substituir a cirurgia em casos de lesões. Mas, tem um adendo: se, ao final de tudo isso, se o resultado da biópsia vem dizendo que é um câncer, a paciente tem de se colocar cirurgicamente para se retirar uma margem de segurança maior. Isso se chama ampliação de margem. Hoje cerca de 90% das biópsias que a gente faz são benignas.

Quais as preocupações mais atuais desses 40 médicos, uma elite da qual a senhora faz parte?
O que a gente conversa muito é que o problema é a questão do overdiagnosis (excessos de diagnósticos). Fala-se que a gente vê demais com as novas tecnologias e sabe que muitas lesões vistas por estes diagnósticos são lesões que não levariam a nenhum resultado patológico. Provavelmente essas pessoas vão morrer de outra coisa. Surgem situações em que se deve pensar: é uma paciente de 80 anos com um diagnóstico desse ou eu estou com uma paciente de 40 anos com diagnóstico? O que se fala muito é ponderar mais porque a gente realmente está diagnosticando muito e mais precocemente e talvez tenhamos mais danos que benefícios em algumas situações, principalmente quando se fala em pacientes mais idosos. Hoje as mulheres não param mais de fazer exames. A gente vai dizer a uma paciente de 85 anos que pare de fazer exame? Mas até que ponto descobrir pré-maligna significa que vai ser necessário o tratamento? Estamos em busca do equilíbrio.

E como lidar com seus pacientes diante de assuntos tão delicados?
Fazemos medicina preventiva e é uma relação de confiança. Temos reuniões em que ensinamos ao pessoal da telefonia sobre a sensibilidade para ver o agendamento menos urgente e mais urgente, como aquela que sentiu o nódulo e ligou. A gente precisa saber dizer notícias ruins da forma mais doce possível porque a forma como você vai passar o diagnóstico vai mudar a forma como a paciente vai encarar tudo daquele dia para frente. Aquele momento é muito importante. Já ouvi de pessoas que há clínicas com comunicados colados na parede dizendo: “Favor não conversar com o médico porque ele está em momento de exame e precisa de concentração”. Para mim, não faz o menor sentido fazer medicina assim.