ENTREVISTA

RICCARDO SAVONE » 'Deveríamos e vamos fazer muito mais juntos' Embaixador do Canadá no Brasil veio a Pernambuco em busca do fortalecimento e ampliação das relações comerciais

KAUE DINIZ e ROCHELLI DANTAS | economia@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 18/03/2017 03:00

O Canadá não figura na lista dos 30 países que Pernambuco mais exporta. Também não está no ranking das importações. Isso não quer dizer que não temos negócios com os canadenses. As transações são tímidas mas existem. Segundo dados do Consulado Geral do Canadá, os negócios entre o país e o estado giram em torno de US$ 25 milhões. Entre Brasil e Canadá são US$ 6 bilhões. O potencial é muito maior e os canadenses sabem disso. Tanto que buscam parcerias com brasileiros, nordestinos e, claro, com Pernambuco. Meio ambiente, energia renovável, tecnologia, inovação e TI são alguns dos setores na mira desses estrangeiros. As estratégias para fomentar os negócios começam pela realização de seminários em todo o Brasil em comemoração aos 150 anos da Confederação Canadense. O primeiro estado a sediar o evento foi Pernambuco. Na rápida passagem pelo estado, na última quinta-feira, o embaixador do Canadá, Riccardo Savone, conversou com exclusividade com a equipe do Diario de Pernambuco. No bate-papo falou sobre os potenciais econômicos do Canadá, as oportunidades de negócios em Pernambuco, política e sobre as mudanças na emissão de vistos para brasileiros que desejam ir ao Canadá. De acordo com Savone, a tendência é que o número de turistas e de viajantes de negócios brasileiros aumente este ano no Canadá com a entrada em vigor do chamado Electronic Travel Authorization – eTA, previsto para entrar em vigor no próximo dia 1º de maio. “O Brasil é como o Canadá do Sul e o Canadá é como o Brasil do Norte. Deveríamos e vamos fazer muito mais juntos”, afirmou.

Quais as relações comerciais existentes entre Canadá e Pernambuco?
São poucas. São US$ 25 milhões entre Pernambuco e o Canadá. Entre Brasil e Canadá são US$ 6 bilhões e está crescendo mas por isso decidimos abrir escritório aqui no Recife. Esta é a capital econômica da Região e achamos que tem muito trabalho a fazer em Pernambuco. Entre um país como o Canadá, país integrante do G20, como o Brasil, país onde trabalhamos juntos nas Nações Unidas. Somos países parecidos e podemos fazer muito mais quanto às relações econômicas. Precisamos começar aqui em Pernambuco porque estamos começando de muito pouco. O Canadá está procurando ocasiões para criar empregos para os canadenses e o Brasil também, então vamos começar no Recife, em Pernambuco.

A título de exportação, quais produtos pernambucanos já entram na pauta de exportação?
Do Canadá para cá, fertilizantes, alumínios, commodities. No inverso, açúcar, suco de laranja, café. Temos diferentes frutas, granito e outros derivados de álcool. De Pernambuco, menos de US$ 25 milhões. Podemos fazer mais.

Porque a relação comercial entre Pernambuco e Canadá ainda é tímida?
Talvez porque precisamos de uma economia mais sólida. No Canadá também estamos com uma economia retomando crescimento. Tivemos anos bem difíceis, sem crescer ou com porcentagem bem pouca. No Brasil, sabemos que os últimos anos foram bem difíceis, por isso o crescimento das relações bilaterais suflaram. Acho que agora a situação vai melhorar e também acho que as empresas e parceiros têm agora uma mente mais aberta para conhecer novos parceiros e projetos. Durante muito tempo, o Canadá, como o Brasil, priorizou relações tradicionais e o Nordeste já tem relações bem estabelecidas com a Europa e outros parceiros. Acho que agora o país inteiro e , claro, o Nordeste também está em busca de novos parceiros para conhecer as oportunidades de crescimento.

Que tipo de negócios o Canadá está buscando?

Temos uns setores da economia que complementam um ao outro. Buscamos negócios na área de meio ambiente, energia renovável, tecnologia, inovação, TI, que também tem um polo muito forte em Pernambuco… Se começarmos nesses setores, temos muito potencial. Também do lado de investimentos temos empresas canadenses que estão procurando fechar negócios nesses segmentos e em infraestrutura. Claro que também queremos levar empresas daqui para o Canadá.

A nível governamental, que tipo de parcerias o Canadá busca?
Trabalhamos muito com parceiros não-governamentais, especialmente na área de apoiar a mulher na comunidade. Para nós, esta é a prioridade número um. Falamos que o Canadá tem um governo feminista. Para nós, isso é importante. Acreditamos muito que, quando uma sociedade trata bem a mulher, todos melhoram e a economia melhora também. Então, procuramos parcerias com ONGs aqui na região e no país inteiro para apoiar projetos assim, que dão mais perfil às mulheres da comunidade, contra violência e também para apoiar as mulheres nos negócios.

O Canadá sempre foi um país muito aberto à imigração. Continua dessa forma?
A história do Canadá sempre foi de imigração. Recebemos de maneira acolhedora os imigrantes no país. Todos os anos recebemos quase 1% da população canadense como novos imigrantes. Apenas em Toronto, nossa maior cidade, 50% da população (estimada em cinco milhões de pessoas) não nasceu no Canadá. Em Vancouver, temos algo entre 30% e 40% da população sendo chineses. Todas as cidades canadenses são assim. Sempre acolhemos imigrantes e isso não vai mudar. Pelo menos com este governo não mudará. Faz parte da tradição canadense. Ano passado e em 2015 recebemos 40 mil refugiados da Síria, o que faz com que o Canadá, junto com o Brasil, sejam os dois países que mais receberam refugiados. Então, trabalhamos juntos para apoiar os refugiados que precisam de uma ajuda importante.

Entre os processos de imigração há um programa que oferece oportunidades de empregos para estrangeiros. Este incentivo também está mantido?
Todos os anos recebemos 300 mil imigrantes, a maioria ligados a este programa de imigração econômica. Uma vez que está integrado na sociedade canadense ele pode convidar a família. É a segunda parte desses 300 mil. A terceira parte são os refugiados. Então, a maior parte são os que se candidataram. No Canadá, temos um sistema de escolher imigrantes. Temos portas abertas mas não queremos alguém que não possa se integrar na sociedade canadense. Alguém que fala inglês ou francês vai ter mais chances que alguém que não fala. Alguém que tenha um trabalho ou capacidade de trabalhar em um setor onde precisamos no Canadá, normalmente vai chegar e rapidamente se instalar, encontrar trabalho e começar uma nova vida.

Em sentido oposto, os EUA estão adotando barreiras aos imigrantes. Sendo assim, vocês imaginam que haverá uma procura ainda maior pelo Canadá?
Ainda precisamos ver o que acontecerá nos EUA. Temos uma relação muito próxima com os EUA. Somos vizinhos. Então, precisamos avaliar o que irá acontecer. No discurso que o presidente Trump fez há duas semanas, ele falou sobre esse sistema do Canadá de escolher os novos canadenses. Talvez os EUA também mudem o sistema. Vamos ver. Atualmente, o processo deles, é como uma loteria. Cada pessoa tem a mesma chance. Para nós, não. Favorecemos os candidatos que podem chegar e se integrar rapidamente.

Vai haver mudanças no visto para o Canadá. A intenção é incrementar ainda mais a chegada de imigrantes ou o foco está nos turistas?
A partir de 1º de maio vamos introduzir o sistema de autorização eletrônica de viagens. Para maioria dos brasileiros que viajam para o Canadá não será mais necessário o visto. Qualquer brasileiro que já teve um visto canadense ou que teve um visto americano nos últimos dez anos, vai poder emitir a autorização online. Ela terá a validade do passaporte e não precisa mandar o passaporte ou deixar na embaixada. É tudo eletrônico. Um sistema integrado. Vai mudar completamente a relação entre Brasil e Canadá. Principalmente do lado do turismo. Os brasileiros querem cada vez mias conhecer o Canadá. Só este ano, temos aumento de 50% na solicitação de vistos sobre o ano passado. As pessoas sabem que daqui a pouco vai chegar a autorização e mesmo assim tem esse aumento na solicitação.

Deve haver mudanças também nas regras para estudantes intercambistas, como os que integram o programa Ganhe o Mundo?
A autorização é para viagens, não é para estudantes. A autorização vai melhorar na situação dos vistos de estudante porque vai liberar com mais agilidade. O escritório terá uma demanda menor dos vistos de turismo e vai poder trabalhar mais nos imigrantes e estudantes.  

Como o senhor avalia o momento político e econômico do Brasil?
As coisas estão melhorando. A situação econômica parece estar melhorando. Estamos vendo que alguns setores estão crescendo. Já é um bom sinal. Do lado político, é sempre interessante… Temos uma história e um relacionamento com o Brasil de muito tempo. Trabalhamos juntos. Somos parceiros e temos uma visão para o futuro parecida. Então, acreditamos no longo prazo.

Diante dessa turbulência que o Brasil enfrenta, há interesse dos canadenses em investir aqui?
Mesmo neste momento, o interesse das empresas existe. As empresas ainda vêm em busca de informações e querem trabalhar mais com as brasileiras. Talvez mudou em algumas áreas mas em geral há interesse. Este é um bom momento para empresas brasileiras investirem ou também trabalharem juntas em novos projetos. Empresas entendem que é um relacionamento de longo prazo não só hoje e amanhã. Os canadenses que trabalham aqui no Brasil entendem isso e estão aqui para ficar. Passam por um momento de incerteza, mas continuam apostando.

Uma área que vem crescendo em Pernambuco é a de energias renováveis. Como vocês veem esse setor? Qual a aposta do Canadá neste sentido?
Estamos mudando das energias de fonte tradicional para as renováveis. Temos no Canadá os mesmos desafios que o Brasil: grandes distâncias com população distribuída. Então, transmissão e distribuição são desafios importantes, como aqui no Brasil. Sempre estamos buscando soluções para investir em tecnologias que serão bem eficientes e também que vão respeitar nosso compromisso quanto a combater a mudança climática. Hidrelétrica sempre foi muito forte no Canadá. Com relação às novas energias, estamos com muitos parques eólicos. Temos muitas soluções para geração distribuída. Quanto à energia solar também temos várias empresas interessadas em ativos aqui no Brasil, por exemplo.