ENTREVISTA

ANDRé SANTOS » 'Investimos no capital humano'

Anamaria Nascimento
anamaria.nascimento.pe@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 16/04/2018 09:00

Uma das principais estruturas acadêmicas ligadas à tecnologia da América Latina é pernambucana. O Centro de Informática da Universidade de Federal de Pernambuco (CIn/UFPE) completa 44 anos com marcas que orgulham. É um dos poucos programas de pós-graduação brasileiros e o único em sua área, no estado, a receber nota 7, a máxima, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no levantamento sobre a qualidade dos programas stricto sensu (mestrado, doutorado e mestrado profissional) do país. Com essa nota, o programa recebe o “selo” de padrão mundial.

Ocupando dois prédios do campus Recife da UFPE, o CIn conta com nove laboratórios, 49 grupos de pesquisa e 17 salas de aula. Tem quase 1,3 mil alunos nos três cursos de graduação (ciência da computação, engenharia da computação e sistemas de informação) e aproximadamente 600 nos mestrados e no doutorado. Os estudantes e ex-alunos entram no CIn com uma certeza: serão disputados nos mercados local, nacional e mundial. Entre os universitários formados no centro, atualmente, 36 trabalham na Microsoft; 15 no Google e 10 no Facebook.

Histórias de sucesso de ex-alunos e de estudantes do Centro de Informática da UFPE foram contadas na superedição do Diario no último fim de semana. A matéria trouxe exemplos como o dos cientistas da computação Igor Gatis, 37, e Gustavo Danzi, 36, que criaram, depois de terem trabalhado na Microsoft, a empresa Acqio, franquia de soluções de pagamentos eletrônicos de cartões de crédito e débito por meio de equipamentos POS (WiFi e GPRS).

A reportagem mostrou ainda que o impacto do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco vai além das fronteiras do campus universitário. Além de formar estudantes que se destacam nos mercados nacional e internacional, o CIn tem papel relevante na transformação do Recife em um “Vale do Silício brasileiro”. O centro acadêmico é tido ainda como a pedra fundamental para a criação do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) e do Porto Digital, que fizeram a capital pernambucana ser considerada o maior polo tecnológico do Brasil.

O CIn está também na origem da revitalização do Bairro do Recife, promovida,  direta ou indiretamente pelo Porto Digital, há quase 20 anos. Desde 2001, mais de 80 mil metros quadrados de prédios históricos da ilha foram recuperados. A previsão, até o fim deste ano, é de que mais 40 mil metros quadrados sejam revitalizados em mais quatro prédios.

Em entrevista ao Diario, o diretor do CIn, André Santos, fez um resgate dos principais marcos históricos do centro e destacou que os pilares de trabalho do berço do polo de inovação do estado são o ensino, a pesquisa e a estreita relação com a indústria.

Quais são os principais marcos na história do Centro de Informática?
O curso é, na realidade, bem antigo. Ele vem desde 1974, quando foram criados o curso de ciências da computação e a pós-graduação em ciência da computação da UFPE. Desde sempre, fizemos um grande investimento em formar capital humano, visando ao máximo de qualidade possível. Ao longo desse tempo, a gente criou o doutorado nos anos 1990. Nessa época, a gente perdia muito aluno para fora do estado porque não existia um mercado consolidado aqui. O conhecimento que os alunos tinham no CIn era avançado para o mercado local. Foi quando começamos a trabalhar para uma interação maior do centro com o mercado. Houve, então, também nos anos 1990, a criação do CESAR e do Porto Digital, objetivando a criação de startups, o fomento do empreendedorismo e o fortalecimento da relação da academia com o mercado. Fizemos isso sem abrir mão da excelência no ensino de graduação, na pesquisa e na pós-graduação.

A que vocês creditam o fato de o CIn ser referência nacional e internacional no ensino superior?
Acho que isso se deve a essa estratégia de formar pessoas que pudessem tanto se voltar para o CIn quanto alimentar esse mercado do Porto Digital e de startups. É uma formação que viabiliza irrigar esse mercado local e, obviamente, também os mercados nacional e internacional. No entanto, o principal ainda é a a estratégia de investir muito em uma boa formação em graduação e pós-graduação.

Então os pilares do CIn são o ensino, a pesquisa e essa relação com o mercado?
A gente se preocupa para não descuidar de nenhum viés. Estamos sempre preocupados com a qualidade dos cursos de graduação e com a formação dos alunos. Abrimos novos cursos ao longo dos 15 anos, crescemos com os cursos de engenharia da computação e sistemas de informação, além, claro, do mais antigo, que é o de ciência da computação. A formação na graduação é complementada com a questão do empreendedorismo, com a parte de projetos que eles podem se envolver ao longo do curso. Em linhas gerais, é uma formação que abre as portas para eles encararem a carreira que quiserem depois, seja acadêmica, seja no mercado. Temos essa preocupação com a pós-graduação também e, para isso, a gente tem um corpo docente de professores reconhecidos nacional e internacionalmente. Somos nível 7 na Capes, que é o nível mais alto que uma pós-graduação pode atingir. O terceiro pilar é essa parceria com a indústria. A gente recebe demandas de governos, de empresas locais, nacionais e internacionais. Estamos sempre abertos a conversar com eles e ver se tem algum conhecimento, alguma pesquisa que possamos fazer transferência de tecnologia ou desenvolver novos conhecimentos que possam ser transferidos para o mercado. Esse é um diferencial que infelizmente não ocorre com muita frequência nas universidades, então temos um grande destaque nacional por isso. São questões que estão entrelaçadas, mas estamos sempre atentos para não descuidar de nenhum desses pilares.

Quais são os principais projetos que estão sendo desenvolvidos atualmente?
Do ponto de vista da cooperação com a indústria, a gente trabalha fortemente com indústria automobilística e temos projeto com a FCA (Fiat Chrysler Automobiles), que está instalada em Goiana. Temos cooperação ainda com a industria de tecnologia da informação, como Samsung, Motorola e outros. Localmente, temos parcerias com empresas instaladas no Porto Digital e com o próprio Porto Digital. Temos uma relação muito próxima ainda com o CESAR e com o governo. Recentemente, em março, inauguramos o SandPIT, um espaço dedicado à prototipação e inovação tecnológica. Ele que é voltado para a viabilização de startups a partir de projetos de alunos, pois temos também várias empresas do Porto Digital que foram criadas a partir de ideias de alunos nossos. Queremos fomentar isso.

Como vocês enxergam o CIn no futuro?
O nosso trabalho é nunca descuidar do tripé ensino, pesquisa e estreita relação com a indústria, então estamos sempre atentos às novas tecnologias, às novas frentes de pesquisa que surgem a cada dia. Nosso foco continuará no ensino, na pesquisa e na pós-graduação. Eventualmente, pensamos em criar novos cursos também. Mas nosso foco será traballhar fortemente para manter as ações que já desenvolvemos. Outro ponto que temos em mente para o futuro é uma maior internacionalização do CIn. Estamos trabalhando para fortalecer nossas colaborações com centros de pesquisa, laboratórios, universidades e a indústria internacional. Já temos cooperações, mas queremos reforçar isso e aumentar o número de estudantes do exterior vindo para cá, isto é, fomentar o intercâmbio. Buscamos mecanismos de internacionalização tanto de pesquisa quanto de ensino e cooperação. O cenário atual é bom, pois há muito interesse das universidades do exterior em colaboração. Hoje, os principais países com quem colaboramos são Inglaterra, Canadá, EUA, França e Alemanha. Além disso, vejo o CIn como o hub de inovação da UFPE.

Quais novos cursos seriam esses?
A gente tem colaborado com o campus do Agreste da UFPE, em Caruaru, que está com o projeto de lançar um curso de engenharia de software. Estamos estudando o lançamento também no Recife. Trabalhamos em conjunto e há possibilidade de esse curso ser lançado nos dois campi no futuro. Um futuro que não dá para se comprometer ainda, mas digamos que em 2019 é possível que isso seja viabilizado. Ainda estamos em estudo porque essa é uma decisão que envolve vários setores da universidade, uma vez que há questões de infraestrutura, contratação de professores. Por enquanto, não temos como dizer nada de muito concreto, mas a gente vem trabalhando nisso há algum tempo.

Como o CIn se mantém hoje com tantos laboratórios de ponta, apesar do corte de orçamento do governo federal?
A gente tem o orçamento que vem do governo federal, principalmente para professores e infraestrutura. Temos ainda financiamentos também de projetos aprovados em órgãos de fomento, como Facepe, CNPq, Ministério da Ciência e Tecnologia. Além disso, temos os projetos de cooperação com a indústria, que é um braço muito forte na manutenção dos laboratórios, da infraestrutura e para a desenvolvimento de novas tecnologias. Essa parceria viabiliza ainda muitas bolsas de alunos e possibilita a contratação de profissionais.    

Como é a empregabilidade dos alunos do CIn após a conclusão da graduação?
A gente recebe demandas constantes de empresas. Mais de uma vez por mês, recebemos visitas de empresas interessadas em conversar com os nossos alunos, então a empregabilidade deles é muito grande. A gente recebe tanto empresas locais como nacionais e internacionais. Todo semestre recebemos visitas do Google, Facebook, Microsoft e outras empresas, então a demanda é muito forte para todos os alunos dos nossos cursos.