Moda e Beleza

São João pernambucano vira estampa Conhecido pela moda engajada, o estilista Ronaldo Fraga desenvolveu identidade visual do São João de Caruaru e criou estampa inspirada nas saias rodadas dos vestidos juninos

texto: Larissa Lins
larissa.lins@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 24/06/2017 03:00

O movimento das saias rodadas nos festejos juninos sempre atraiu a atenção do estilista mineiro Ronaldo Fraga, reconhecido por sua moda engajada com a cultura brasileira e as demandas sociais da atualidade. No último mês, o mosaico de cores criado pelos vestidos, se vistos de cima, foi a principal inspiração de Fraga para desenvolver a identidade visual do São João de Caruaru - coração das tradições juninas em Pernambuco. Das pesquisas, nasceram estampas. E das estampas, produtos temáticos, entre vestuário, acessórios e objetos decorativos. “Eu queria desenvolver algo que tivesse muito da tradição, do espírito do São João, mas com um frescor no olhar. O movimento das saias das dançarinas e todos aqueles babados das quadrilhas me inspirou. E assim surgiram as bailarinas das estampas, vistas de cima. Cada uma delas foi associada a ícones que simbolizam a festa”, explica o estilista.

Para imprimir o São João pernambucano na moda, uma das principais vitrines dos costumes sociais ao longo da história, Ronaldo Fraga visitou o Agreste pernambucano e percorreu pontos-chave para a identidade cultural local. Foi à Feira de Caruaru e ao Parque de Eventos da cidade, além de percorrer estações ferroviárias e feiras de artesanato informais da região. Foi um processo de reencontro, já que o mineiro, considerado embaixador da cultura brasileira para o mundo, se debruça sobre pesquisas acerca da cultura popular pernambucana há anos, desde que se tornou frequentador do Recife e de Olinda.

Nas últimas semanas, os seguidores dele nas redes sociais acompanharam a imersão em tempo real: fotografias dos principais polos da festa junina e símbolos tradicionais – sobretudo balões e bandeiras - se multiplicaram nos perfis de Fraga. “Me sinto em casa no estado. Pernambuco é uma amálgama da cultura brasileira. Há um exercício de criatividade em cada manifestação cultural pernambucana… o frevo, o maracatu, o forró. Tudo isso, todas as vestimentas e referências, tudo isso envolve moda”, ele avalia.

Essa não é a primeira vez que a moda de Ronaldo Fraga e a cultura pernambucana se cruzam: em 2011, bordadeiras de Passira, cidade do Agreste pernambucano reconhecida pelos trabalhos manuais em tecido, colaboraram com o estilista. Alguns anos mais tarde, ele se inspirou no movimento social Ocupe Estelita para desenvolver a coleção de inverno 2015, intitulada Cidade sonâmbula e apresentada como crítica à verticalização e despersonalização dos espaços urbanos.

Não causou estranhamento, portanto, o convite – formalizado por Lúcio Omena, presidente da Fundação de Cultura e Turismo de Caruaru, há pouco mais de um mês – para que o mineiro emprestasse seu olhar à concepção da identidade visual do São João caruaruense.

Além da estreita relação afetiva do estilista com o estado, a chancela de Fraga à frente do projeto Estampa Caruaru fortalece o intercâmbio entre Pernambuco e Minas Gerais, dois estados referenciados como berços de preservação das tradições culturais. A sensibilidade e o reconhecimento internacional dele se somam à equação.

“Eu também me perguntei por que um mineiro faria a arte da joia da coroa da cultura pernambucana? Fiquei surpreso e senti o peso da enorme responsabilidade ao assumir essa missão. Mas isso gera um intercâmbio, é uma forma de oxigenar as coisas, agregar novos olhares. Esse é um projeto que descentraliza o São João, vai além do grande palco, do palco principal da festa, lança luz sobre o entorno”, reflete Ronaldo Fraga, que voltará a Pernambuco no fim deste mês, quando acompanha os festejos de São Pedro – celebrado no dia 29 de junho.

O Estampa Caruaru é fruto de convênio entre a Prefeitura de Caruaru e o estilista, em parceria com o Núcleo de Design da Universidade Federal de Pernambuco. A iniciativa pode se desdobrar em novas ações nos próximos meses, a fim de se consolidar ao longo do ano e ampliar seu alcance no próximo São João.

Entrevista

Ronaldo Fraga // estilista

“O pernambucano é o grande guardião da cultura”


Quais os principais desafios ao desenvolver uma estampa que simbolizasse a cultura junina, tão tradicional em Pernambuco?
Foi desafiador, sobretudo, pelo tempo. Tivemos cerca de um mês de pesquisa e concepção da estampa. Desenvolver isso em cima da hora foi uma grande missão, mas ver que a Fundação de Cultura e os coletivos que se envolveram no projeto não se intimidaram tornou tudo possível. Eles mandaram ver. Não tiveram medo de descentralizar, de dar novo olhar a uma tradição. É um exemplo para todo o Brasil.

Qual a sua visão pessoal sobre a cultura pernambucana, como pesquisador das nossas tradições e como frequentador do estado? O que a torna especial?
Nenhuma outra cultura do país é tão musicalmente diversa quanto a cultura pernambucana. É uma cultura riquíssima de todas as formas, rica no maracatu, no forró, no frevo, no carnaval como um todo. Se eu pudesse destacar um ponto no qual a cultura pernambucana “dá um banho” sobre todas as outras culturas, esse ponto seria a música.

E como vê a preservação das tradições culturais locais?
O povo pernambucano, de todos, e olha que eu ando muito nesse país, é o grande guardião de sua cultura. Se você quer falar ao coração do pernambucano, tem que falar da cultura pernambucana. O povo pernambucano, ainda bem, é um grande defensor da cultura local.

Há outros projetos envolvendo a moda e a cultura pernambucanas?
Sim. Há muitos desejos, mas não estou articulando tudo de imediato. Ainda estou muito envolvido com a Estampa Caruaru, com o lançamento, a concretização do projeto. Mas faremos muitas coisas. O Grande Hotel, casarão que administro em Belo Horizonte (MG), cresceu e tem me envolvido muito. Já conversei com alguns artistas pernambucanos e nós vamos promover uma Ocupação Pernambuco no Grande Hotel. Farei ocupações culturais de diferentes estados, mas quero começar por Pernambuco. Haverá músicos, designers, fotógrafos, todos pernambucanos, numa espécie de exposição temática no casarão onde funciona o Grande Hotel.