Turismo

Mísseis norte-coreanos viram 'arma' de Guam Ilha do Pacífico pertencente aos Estados Unidos espera por mais turistas depois da polêmica entre Trump e Kim Jong-un

Noel Caballero
DA AGÊNCIA EFE

Publicação: 19/08/2017 03:00

Bangcoc - Banhada pelas cristalinas águas do Pacífico Ocidental, Guam passava muitas vezes despercebida entre várias ilhas turísticas da Micronésia, mas a ameaça da Coreia do Norte de atacá-la pode ajudar a mudar este cenário e, curiosamente, atrair visitantes. “Todo o mundo está falando de Guam (...) o turismo vai se multiplicar por dez sem gastar dinheiro”, declarou recentemente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao classificar a ilha como “maravilhosa” e abrir as portas para uma futura visita.

Cerca de um milhão de pessoas visitaram neste ano o território que pertence aos EUA desde o final do século 19, procedentes em sua maioria dos vizinhos Japão, Coreia do Sul, Taiwan e China, segundo dados oficiais. O turismo é uma indústria-chave para os 163 mil habitantes da ilha, que esperam que ele cresça ainda mais assim que diminuir o nível de alerta após o anúncio dos planos da Coreia do Norte de realizar um ataque em suas águas. “Guam é o paraíso, temos 95% de ocupação, mas, depois que tudo isto terminar, vamos alcançar 110%”, previu o governador da ilha, Eddie Calvo.

As autoridades e agentes turísticos afirmaram que a ameaça norte-coreana não afetou até agora as chegadas à ilha, apesar de existir uma certa preocupação. “Não registramos baixas nas últimas semanas, pelo contrário, muita gente nos procura para consultar os pacotes de viagem disponíveis e atividades na ilha”, disse um representante da agência Tortuga.

Entre os atrativos dos chamados “Estados Unidos da Ásia” destacam-se as praias de areia branca, os recifes de coral e os passeios pela floresta, unidos a um agradável clima tropical. Outros viajantes também veem como um atrativo a isenção de impostos em muitas lojas, o que permite que os turistas retornem com as malas carregadas. “Uma desafortunada circunstância pode se transformar em uma grande oportunidade para informar ao mundo sobre Guam e sua cultura”, comentou Josh Tyquiengco, diretor do Escritório de Visitantes de Guam, órgão oficial que estimou em US$ 1,6 bilhão o total de investimentos em 2015 gerados por esta atividade.

O regime de Kim Jong-un anunciou na última semana que prepara um plano para disparar em meados de agosto quatro mísseis em águas territoriais de Guam. Especialistas em defesa estimam que um míssil de alcance médio Hwasong-12 lançado pelo regime norte-coreano demoraria de 14 a 15 minutos para recorrer os 3.430 quilômetros até atingir a ilha. O Escritório de Defesa Civil distribuiu em hotéis e locais turísticos folhetos informativos com recomendações para os visitantes e funcionários se prepararem diante da “iminente ameaça com mísseis”.

Em 2013, a Coreia do Norte já havia colocado Guam entre seus alvos, devido ao fato de a ilha ser um lugar estratégico das tropas americanas para o controle do Pacífico. Bases militares dos EUA ocupam um quarto dos 550 quilômetros quadrados da ilha, onde há 6.000 soldados, e de lá operam bombardeiros B-1B com capacidade nuclear. Mas o governador Eddie Calvo insiste que Guam “está a salvo”, ao mostrar suas dúvidas sobre a capacidade da tecnologia norte-coreana e confiar no sistema de defesa antimísseis dos EUA.

Espanhola, mas norte-americana
Com 550 km2, foi descoberta em 1521 pelo navegador português Fernando de Magalhães, mas ocupada desde 1526 pela Espanha. Virou colônia dos Estados Unidos pelo Tratado de Paris, de 1898, no fim da Guerra Hispano-Americana. Invadida pelo Japão em dezembro de 1941, na guerra do Pacífico, foi recuperada pelos EUA em 1944.

Direitos limitados

Guam tem status de território não incorporado dos Estados Unidos, como acontece com Porto Rico. Seus 163 mil habitantes, dos quais 40% pertencem à população indígena chamorro, são cidadãos norte-americanos, mas com direitos limitados. Não podem participar das eleições nos Estados Unidos, e o único representante da ilha no Congresso não tem direito a voto nos projetos de lei. Regularmente, surgem pedidos de referendo de autodeterminação, mas a Justiça federal norte-americana os rejeita. O republicano Eddie Calvo atua desde 2011 como governador. Em Guam, 45 mil pessoas recebem ajuda alimentar e se beneficiam do sistema de saúde norte-americano.

Base militar estratégica
Situada 2.600 km ao leste das Filipinas, Guam é um ponto estratégico para as forças norte-americanas, que contam com 6.000 soldados distribuídos em várias bases aérea e naval. Dessa ilha, a principal do arquipélago das Marianas, partiam os bombardeiros B-52 para atacar Hanói durante a Guerra do Vietnã (1955-1975).

Praias paradisíacas
O Exército contribui de maneira importante para a economia local, mas as praias paradisíacas, os complexos hoteleiros e as lojas duty-free representam um terço dos empregos em Guam, que atraiu mais de 1,5 milhão de visitantes em 2016. A maioria é japonesa e sul-coreana. O PIB per capita foi de US$ 35.439 em 2015. (AFP)