Turismo

Caminhos da fé que levam todos a Roma Capital italiana divide com o Vaticano as atenções do turismo religioso com suas basílicas e monumentos cristãos

texto e fotos: Alice de Souza
alice.souza@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 17/06/2017 03:00

Um olhar desatento pode incorrer no erro de conferir igualdade visual a todo templo religioso, mas essa é uma das maiores “heresias turísticas” que se pode cometer. As igrejas, catedrais, basílicas e afins resgatam a história da religião, mas também são peças do quebra-cabeça que reconta a vida e a produção cultural de uma época. Não à toa, por ano, o turismo religioso movimenta 600 milhões de viagens e 330 milhões de pessoas no mundo. Boa parte desse público tem como destino a Itália, com mais precisão Roma e o Vaticano. Visitar a sede do cristianismo católico é melhor forma de compreender a singularidade das construções edificadas na fé.

Quarenta milhões de pessoas vão à Itália todos os anos para praticar turismo religioso. Os peregrinos modernos remetem a uma tradição iniciada em meados do século 2 depois de Cristo, mas que só ganhou força com a oficialização do cristianismo no Império Romano, pelo então imperador Constantino. Ao longo dos séculos, visitar locais santos tornou-se um nicho de turismo em constante crescimento que atrai não só aqueles que buscam a renovação da fé. Há 30 anos o Conselho da Europa reconheceu a importância dos caminhos religiosos como veículos culturais primordiais.

A Itália, com suas 30 mil basílicas e igrejas, segue fazendo jus de ser o berço desse costume. Parte dessa culpa está no Vaticano. A Santa Sé atrai todos os anos quase 6 milhões de visitantes. Basta colocar os pés nos corredores do Museu do Vaticano, cheios de obras de arte dos mais renomados pintores e escultores, para entender essa multidão. A riqueza financeira e cultural agregada ao complexo, do qual fazem parte a praça de São Pedro, Capela Sistina, necrópoles e a Basílica de São Pedro, é incalculável. A dica é apenas chegar cedo e tentar antecipar a compra dos ingressos (necessários para visitar o museu) pela internet. Furar fila desse jeito não é pecado.

As relíquias sagradas e endereços religiosos estão pulverizados para além das cercanias do Vaticano. Só de basílicas maiores papais, aquelas nas quais existem portas santas e tronos do papa, são quatro. É visitando todas, por exemplo, que se descobre que São Pedro não é a basílica oficial do Santo Padre e que não existe só uma Capela Sistina.

Uma viagem religiosa por Roma não se atém somente aos templos maiores. São 900 igrejas para percorrer, “escondendo” obras de Michelangelo, Rafael, Bernini entre outros. Vale destacar os jardins e corredores das Catabumbas de Calixto, com 15 hectares e uma rede de galerias subterrâneas de 20km, onde foram sepultadas 500 mil pessoas, sendo 16 papas. E ainda a Basílica de Santa Maria dos Anjos e Mártires, com sua impressionante fachada em pedras, da qual parte dos tijolos tem quase dois mil anos.

Para encontrar os sagrados tesouros perdidos atrás das impressionantes construções romanas, é preciso ter disposição e vontade de vencer os medos, como o de entrar em lugares claustrofóbicos.

A repórter viajou a convite da Obra de Maria

Devoção brasileira na Itália e em Israel

O Brasil é considerado estratégico para a Itália quando o assunto é turismo religioso, em função da sua população de quase 120 milhões de católicos. Durante as celebrações do Jubileu de Ouro da Renovação Carismática Católica (RCC), realizadas no começo do mês em Roma e no Vaticano, bandeiras verde e amarela se multiplicavam. O Brasil foi responsável pela segunda maior delegação do evento, com 4,7 mil fiéis, ficando atrás apenas da própria Itália. Por ano, para se ter uma ideia, a Obra de Maria em seu braço de turismo envia oito mil viajantes a roteiros religiosos em todo o mundo. Desses, a metade segue para a Itália, enquanto o restante vai a Jerusalém, estima a empresa, que começou a fazer o serviço em 1993.

Dos oito mil, dois mil peregrinos são pernambucanos. A comunidade mantém um quadro fixo de 40 guias. Somente para o jubileu foi preciso enviar 60. Um deles foi o missionário Severino Souza Júnior, 32 anos. Guia há nove anos, ele já conheceu 22 países em peregrinações. “O desafio dessas viagens é promover um verdadeiro encontro com Deus. É impressionante, tem gente que vende comida, passa dois, três anos pagando para vir”, conta ele, cujo trabalho é voluntário.

As quatro basílicas papais maiores

1) Basílica de São Pedro


A mais famosa dentre as quatro basílicas papais maiores está localizada dentro do Vaticano, no terreno onde Simão Pedro, um dos doze apóstolos de Cristo, foi crucificado. A primeira edificação da basílica foi derrubada no século 16, dando espaço ao atual prédio, do qual participaram na construção Rafael e Michelangelo Buonarroti. A entrada é gratuita, mas é preciso ir preparado para enfrentar a multidão.

Cúpula
Com altura equivalente a 44 andares, foi projetada por Michelangelo. É possível subir ao topo dela, pagando 6 euros. São 551 degraus, mas a visão compensa o esforço.

Túmulo do papa João Paulo 2º
Está na Capela de São Sebastião, a segunda à direita, dentro da basílica. No local também repousam outros dois papas e duas rainhas.

Túmulo de São Pedro
O local onde está o corpo do homem que negou a Cristo três vezes, o primeiro papa da Igreja Católica, faz parte do complexo da necrópole subterrânea. É preciso uma reserva com antecedência.

Obras de Arte
Destaque para a Pietà, de Michelangelo, retrato do luto da Virgem Maria. A escultura está na primeira capela à direita, envolvida por uma peça de vidro desde um ataque, em 1972.

2) Basílica de Sta. Maria Maior

É a maior das igrejas dedicadas a Maria, construída em 432, e a única, dentre todas as basílicas maiores, que tem o teto todo adornado em ouro. Dentro dessa basílica também está a “outra” Capela Sistina. Esse é um dos templos mais fáceis de encontrar em Roma, já que está localizado entre a estação de trem Termini e a região do Coliseu, caminho comum a muitos turistas. Lenda diz que surgiu de um milagre.

Relíquia de Cristo
Embaixo do baldaquino, a basílica guarda um pedaço da manjedoura onde Cristo nasceu. A relíquia é guardada numa espécie de caixa prateada, cercada por vidro. Fica na parte central do tempo.

Porta santa de São Pedro
É aberta pelo papa para marcar o início dos Anos Santos e fechada ao término desse período, com tijolos e argamassa. Quem passa  recebe uma indulgência plenária.

Teto em ouro
A cobertura da basílica é completamente em ouro. Um presente doado por monarcas espanhóis, a partir das explorações da América, ao então papa Alessandro 6º.

Túmulo de Bernini
O escultor, arquiteto e pintor Gian Lorenzo Bernini - responsável pela colunata da Praça de São Pedro, no Vaticano, e também a fonte central da Praça Navona, entre outras - está sepultado na basílica.

3) Arquibasílica S. João de Latrão

Apesar de estar fora das cercanias do Vaticano, é a catedral oficial de Roma e do papa. É para essa basílica que o Santo Padre vai logo após a eleição na Capela Sistina, fazendo dela a mais importante até que a Basílica de São Pedro e também onde ele dá bênçãos nas Quintas-feiras Santas. É a mais antiga entre as basílicas maiores e a mais antiga igreja católica do ocidente. Foi fundada na época do imperador Constantino.  

Altar papal
É lá onde se posiciona a cadeira onde o novo escolhido para assumir o papado senta, após deixar a Capela Sistina. Ao redor dela, estão dois corredores de bancos para os cardeais.

Estátua de Constantino
Uma estátua do imperador Constantino, lembrado por oficializar o cristianismo no Império Romano, está na entrada da igreja.

Mosaico
O teto dourado chama primeiro a atenção. Acima do altar central, na abside (meia cúpula) está o mosaico restaurado em meados da década de  1290, por dois frades.

Resquícios do passado
Uma porta de bronze que costumava ficar na sala do senado, no Fórum Romano. Uma lousa usada por São Pedro para celebrar a eucaristia. Algumas das relíquias encontradas no local.

4) São Paulo Fora dos Muros

Única dentre as basílicas papais maiores localizada fora dos muros aurelianos, que antigamente serviam de proteção a Roma, essa basílica impressiona à primeira vista pela beleza exterior. Está erguida no local onde se acredita ter sido sepultado São Paulo e é considerada patrimônio da humanidade pela Unesco. São Paulo Fora dos Muros é a segunda basílica papal maior em tamanho, atrás de São Pedro.

Mosaico dos papas
Ao redor de toda a basílica, existe um mosaico com o rosto de todos os papas. A tradição começou durante o papado de Leon Magno, no século 5. Apenas o medalhão do papa atual permanece aceso.

Quadripórtico
Com os jardins da parte externa, sobressai logo aos olhos o quadripórtico formado por 150 colunas, construído em 1928. No complexo de entrada, há uma estátua colossal de São Paulo.

Correntes de São Paulo
Dentro da basílica estão nove elos das correntes que teriam sido usadas para prender São Paulo antes da decapitação, ordenada pelo então imperador Nero. Estão em um relicário de bronze.

Escavações e obras
Dentro da basílica está o Candelabro Pascal de Nicola D'angelo e Pietro Vassalletto. Já perto da saída há um museu com peças encontradas durante as escavações já feitas no terreno.